A WISeKey, aquela empresa suíça de cibersegurança que vive prometendo revolucionar a internet das coisas desde a década passada, soltou comunicado atualizando o progresso da WISeSat, sua subsidiária dedicada a colocar satélites de baixíssimo custo em órbita para autenticar dispositivos conectados. O comunicado vem recheado de jargão técnico, projeções animadoras e a inevitável menção a parcerias estratégicas. O preço da ação reage, o investidor de varejo se anima, e ninguém repara no detalhe que importa: o setor espacial privado, vendido como triunfo do empreendedorismo livre, é hoje um dos mercados mais dependentes de contratos governamentais, garantias estatais e benefícios fiscais que existem no planeta.

Quer dizer, vamos combinar uma coisa. Empresa que vive lançando press release sobre marcos atingidos, mas cujos resultados financeiros nunca chegam à mesma altura do entusiasmo, costuma viver de uma coisa só: expectativa. E expectativa, no mercado de capitais moderno, é commodity fabricada com dinheiro barato, juros artificialmente baixos e investidor anestesiado pela enxurrada de liquidez que os bancos centrais despejam há mais de uma década. Quando o crédito custa nada, qualquer projeto que prometa o futuro vira investimento racional. Quando o custo do capital volta ao normal, a maré baixa e descobrimos quem estava nadando pelado.

O setor espacial é o caso clássico do que se vê e do que não se vê. O que se vê é o foguete brilhante subindo, o satélite miniaturizado, a manchete sobre democratização do espaço. O que não se vê é o ecossistema inteiro de contratos militares, agências espaciais nacionais, isenções tributárias regionais e fundos públicos de inovação que sustentam a maior parte dessa cadeia. Tira o subsídio, tira a encomenda governamental, tira o dinheiro impresso a custo zero, e boa parte dessas empresas vira pó num trimestre. O empreendedorismo aqui é metade Schumpeter, metade Petrobras com sotaque suíço.

E aí entra a parte que o investidor brasileiro precisa entender, porque ele é o último a saber e o primeiro a pagar. Companhia de capitalização modesta, listada em bolsa, com histórico de diluições recorrentes, anunciando avanços tecnológicos numa subsidiária que ainda não gera receita relevante, é o tipo exato de papel que sobe com news flow e desce com fato concreto. O modelo de negócio depende de continuar emitindo ações, captando rodadas, fechando parcerias com nomes pomposos. É a economia da promessa perpétua, sustentada pela mesma lógica que mantém startup deficitária valendo bilhões: enquanto houver liquidez no sistema, há comprador para o sonho.

Me diz uma coisa, qual é a diferença real entre uma estatal que queima dinheiro do contribuinte para construir refinaria que nunca opera e uma empresa de capital aberto que queima dinheiro de acionista minoritário para colocar satélite que talvez gere receita daqui a sete anos? A diferença é cosmética. Em ambos os casos, há uma elite gestora vivendo de salário e bônus enquanto o capital alheio é consumido em nome de um futuro que justifica todos os sacrifícios presentes. A linguagem muda, o mecanismo é o mesmo: socializar o risco, privatizar a esperança, e quando a conta chegar, culpar o mercado, a guerra, a pandemia, o clima, qualquer coisa menos a alocação ruim de capital que sempre esteve ali, à vista de todos.

O espaço não é mais a fronteira do livre mercado. É o novo balcão de favores, onde governos terceirizam ambição geopolítica para empresas privadas e essas empresas, por sua vez, terceirizam o risco para o investidor que acreditou no folheto. Quem quer comprar promessa pode comprar. Mas que ninguém depois venha reclamar que o capitalismo falhou, porque o que está em órbita ali não é capitalismo, é capitalismo de compadrio com gravidade zero.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.