O governo socialista de Madri saiu a campo com uma tese curiosa, daquelas que se vendem como compaixão e cheiram a desespero contábil. Sem os imigrantes, dizem, os bares fechariam, os serviços ruiriam, a Espanha pararia. A oposição que ousa questionar a política migratória estaria, portanto, ameaçando os pilares da vida espanhola. Olha, quando um governo precisa dizer em alto e bom som que a economia do país depende de quem acabou de chegar, ele não está fazendo elogio à diversidade. Está assinando o atestado de óbito do próprio modelo civilizacional que jurou defender.

A pergunta que ninguém em Madri quer fazer é a única que importa: por que cargas d'água a Espanha precisa importar gente para servir café? A resposta está nas estatísticas demográficas que o Palácio de la Moncloa prefere não comentar em coletiva. A taxa de fecundidade espanhola está abaixo de 1,2 filho por mulher, uma das mais baixas do planeta. Décadas de Estado de bem-estar generoso, tributação confiscatória sobre famílias produtivas, habitação inacessível por causa da própria regulação estatal e um zeitgeist cultural que convenceu duas gerações de que ter filho é sacrifício burguês produziram exatamente o que se encomendou. Um país de velhos sem netos, dependente de mão de obra estrangeira para manter de pé um sistema previdenciário que é, no fundo, uma pirâmide financeira com selo oficial.

Quer dizer, a coisa toda funciona assim: o governo cobra imposto pesado do trabalhador jovem para pagar o aposentado de hoje, promete ao trabalhador jovem que algum dia chegará a vez dele, e quando o trabalhador jovem some, porque foi taxado, regulado e desestimulado a constituir família, o mesmo governo aparece dizendo que precisa importar trabalhador jovem de fora para sustentar a promessa que não consegue mais honrar. É o esquema Ponzi com passaporte. E os bares, coitados, viraram metáfora involuntária. Não fecham por falta de garçom estrangeiro, fecham porque o Estado cobra do dono do bar uma carga tributária que tornaria inviável contratar até espanhol nativo, quanto mais pagar salário digno a quem quer que seja.

Vale seguir o dinheiro, como sempre. Quem ganha com essa narrativa? O aparato burocrático que administra a chegada, o assentamento, os benefícios sociais e a integração de centenas de milhares de pessoas por ano. ONGs com contratos públicos polpudos, sindicatos que engordam suas bases, partidos que cultivam eleitorados cativos em bairros periféricos, empresários do agronegócio e da hotelaria que conseguem manter salários comprimidos justamente porque a oferta de trabalho desesperado é abundante. Quem perde? O contribuinte espanhol médio, que paga a conta da previdência quebrada, da habitação encarecida, dos serviços públicos saturados e da insegurança crescente nos arredores das grandes cidades. O custo é distribuído entre milhões, o benefício é concentrado em poucos. Funciona sempre assim, em Madri ou em Brasília.

O mais cômico, ou trágico, é a inversão moral que o discurso oficial impõe. Quem questiona o ritmo e a forma da imigração vira xenófobo, racista, ameaça à democracia. Quem defende que a Espanha resolva primeiro suas próprias contradições internas, desonere famílias, libere o mercado de trabalho, devolva ao espanhol a possibilidade material de ter filhos e construir vida, esse é tachado de retrógrado. A bondade verdadeira foi sequestrada por uma bondade encenada, daquelas que se exibe em manchete de jornal progressista enquanto, nos bastidores, alimenta um arranjo de poder muito menos nobre do que aparenta. O cidadão comum, esse continua pagando, calado, esperando a vez de ser chamado de problema na sua própria terra.

Quando um governo confessa que o país não funciona sem os recém-chegados, não está vangloriando a imigração. Está admitindo que destruiu, com décadas de engenharia social, a capacidade dos próprios filhos de sustentar a casa. A Espanha não precisa de mais imigrantes. Precisa de menos Estado, menos imposto, menos regulação e mais coragem para olhar no espelho. Mas isso, claro, não cabe em coletiva de imprensa.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.