O comunicado é daqueles que passam batido no terminal da Bloomberg entre um café e outro. Wizz Air, a low-cost húngara que vende passagem de Londres a Budapeste pelo preço de uma pizza, informa em 30 de abril que tem 103,5 milhões de ações em circulação. Pronto. Cumpriu a obrigação regulatória, gerou três linhas no Investing.com e seguiu a vida. O leitor distraído pensa: número de ações, capital social, governança, transparência, tudo nos conformes. O leitor que enxerga, esse, faz a pergunta que ninguém na imprensa especializada teve coragem de fazer nos últimos quinze anos: quanto desse capital social é, na prática, financiado pelo bolso de quem nunca pisou num avião da empresa?
Aviação comercial é o setor mais subsidiado do planeta depois do agronegócio europeu, e ninguém comenta. Querosene de aviação isento de impostos que o motorista de Uber paga integralmente no diesel. Aeroportos construídos com dinheiro público e arrendados a preço de banana. Slots em hubs estratégicos distribuídos por critério político. Resgates bilionários toda vez que uma crise aparece, da gripe espanhola da última década aos solavancos cambiais que toda companhia aérea jura nunca ter previsto, embora vivam de hedge cambial. As 103,5 milhões de ações da Wizz valem o que valem porque existe um arranjo silencioso onde o risco é socializado e o lucro é privatizado, e o acionista minoritário entra na festa achando que comprou um pedaço de empresa quando comprou, na verdade, um pedaço de privilégio regulatório.
Olha, o caso húngaro é particularmente saboroso. A Wizz cresceu no vácuo deixado pela liberalização aérea europeia, o que parece bonito no papel, e cresceu também acomodada pela engenharia tributária generosa do governo de Budapeste, que entendeu cedo que ter uma companhia bandeira fingindo ser de mercado livre era melhor para a propaganda do que assumir que se tratava de campeã nacional travestida. O resultado é uma empresa que reporta números limpíssimos ao mercado, distribui ações com a pontualidade de relojoeiro suíço e esconde nas entrelinhas dos balanços a dependência umbilical do tratamento fiscal preferencial, das rotas politicamente alocadas e da infraestrutura paga por quem nunca embarcou.
Quer dizer, o comunicado de 103,5 milhões de ações é tecnicamente correto e moralmente incompleto. Cumpre a Diretiva de Transparência da União Europeia, satisfaz o regulador, alimenta os algoritmos de high-frequency trading que precisam saber o float exato para calcular liquidez e segue para o arquivo morto onde vão parar todas as informações que importam mas que ninguém transforma em manchete. O investidor que compra essa ação no after-market não está comprando uma empresa, está comprando uma posição num arranjo geopolítico onde a aviação europeia é peça de xadrez do projeto de integração continental, e a Wizz é o peão que finge ser cavalo.
O que não se vê, e nunca se verá no comunicado oficial, é a fila de pequenas empresas de transporte regional que foram trituradas pela concorrência desleal de um modelo que só fecha conta porque o querosene não paga imposto. O que não se vê é o passageiro que compra a passagem de quinze euros e financia, sem saber, a própria destruição do tecido produtivo local que poderia ter desenvolvido alternativas reais de transporte. O que não se vê é que cada uma daquelas 103,5 milhões de ações carrega, embutida no seu valor de mercado, uma porção de propriedade alheia transferida sem consentimento, sem assembleia, sem voto. É confisco com nome bonito, e o nome bonito é política industrial.
Me diz uma coisa: quando foi a última vez que você leu uma análise de companhia aérea que começasse pela pergunta de quem paga a conta que não aparece no balanço? Pois é. Continuaremos lendo comunicados de 103,5 milhões de ações como se fosse informação neutra, e continuaremos fingindo que existe livre mercado num setor onde até o ar que o avião corta tem dono e o dono cobra pedágio através do imposto que você pagou ontem no posto de gasolina.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.