A Wolfe Research, casa de análise nova-iorquina que vive de palpite caro, decidiu iniciar cobertura da X-Energy com o rótulo peerperform, que em português claro significa "vai render mais ou menos como os outros, não me responsabilizem por nada". É a forma mais sofisticada de não dizer absolutamente nada e ainda assim cobrar pelo relatório. Quando um analista de Wall Street emite essa nota, ele está confessando que prefere a mediocridade calculada à coragem do julgamento. E olha, há razão para tanta cautela, porque a X-Energy não é exatamente uma empresa, é um projeto sustentado por contratos federais, promessas de reatores modulares e a esperança de que a próxima administração não corte o cheque.
O que ninguém quer explicar é a origem do entusiasmo recente pelo nuclear. Décadas demonizando o átomo, fechando usinas alemãs por histeria pós-Fukushima, sabotando o setor com regulação asfixiante, e de repente todo mundo descobriu que sem energia firme não existe inteligência artificial, não existe data center, não existe reindustrialização. A Amazon assinou contrato com a X-Energy, o Departamento de Energia americano despejou centenas de milhões em subsídio direto, e agora os analistas correm atrás do trem que eles próprios ajudaram a parar. É o ciclo eterno da política energética ocidental: destruir por ideologia, ressuscitar por necessidade, e cobrar a fatura do contribuinte nas duas pontas.
Siga o dinheiro e a história fica mais interessante. A X-Energy recebeu mais de um bilhão de dólares do programa ARDP do governo federal, dinheiro que saiu do bolso do americano comum para subsidiar uma tecnologia que deveria competir no mercado pelos próprios méritos. Quando o capital privado finalmente chega, ele chega por cima de uma fundação construída com dinheiro confiscado via imposto. E o analista da Wolfe, sentado no escritório de Manhattan, avalia esse arranjo como se fosse mercado livre, como se a empresa estivesse sendo testada pela disciplina da concorrência, quando na verdade está sendo carregada nas costas do erário. Peerperform de quem, exatamente? Dos outros parasitas do mesmo balcão?
O caso é exemplar de como o capitalismo de compadrio se disfarça de inovação. Cria-se uma "empresa de tecnologia limpa", recebe-se subsídio gordo, assina-se contrato com gigante do setor privado que também adora benefício fiscal verde, e o resultado é apresentado como triunfo do empreendedorismo. Não é. É engenharia financeira costurada em Washington, vendida em Wall Street e digerida pela imprensa especializada como se fosse a mão invisível operando. A mão aqui é bem visível, tem CPF, tem lobista e tem orçamento federal. O reator pequeno modular pode até funcionar tecnicamente, a questão não é essa, a questão é que ninguém saberá nunca se ele teria sobrevivido num mercado de verdade, sem a muleta estatal segurando cada parafuso.
E aqui vem a parte que o relatório jamais menciona. Toda vez que o governo escolhe um vencedor, ele simultaneamente mata dezenas de concorrentes que jamais existirão. O capital que foi para a X-Energy não foi para outra dezena de startups nucleares que talvez fossem mais eficientes, mais baratas, mais seguras. Os engenheiros que foram contratados ali não estão trabalhando em soluções que o consumidor escolheria livremente. E o pior, criou-se uma dependência política: agora a empresa precisa do Estado para sobreviver, vai contratar lobista, vai financiar campanha, vai pressionar por mais regulação que beneficie ela e prejudique os que vierem depois. O subsídio é a porta de entrada da captura regulatória, e a captura regulatória é o túmulo da concorrência.
A nota peerperform da Wolfe é, no fim das contas, a confissão honesta de um mercado que perdeu a capacidade de julgar valor real. Quando metade da equação é decidida em Brasília, em Bruxelas ou em Washington, o analista financeiro vira leitor de fofoca política, não avaliador de negócios. Ele não está olhando para a empresa, está olhando para a próxima eleição americana, para o humor do Congresso, para o tamanho do próximo cheque federal. O mercado livre teria dado uma resposta clara, sim ou não, lucro ou prejuízo. O mercado capturado dá peerperform, que é o som que o capitalismo faz quando perdeu a vergonha na cara.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.