A notícia chega embrulhada no jargão polido das mesas de análise: classificação Peerperform reiterada para a Pinnacle West, holding da concessionária de energia elétrica do Arizona. Tradução para quem não fala wall-streetês: a ação vai render mais ou menos o que rendem as outras do setor, ou seja, nada de empolgante. E aqui mora o ponto que ninguém da imprensa financeira tem coragem de cravar: quando uma análise diz que sua empresa é igualzinha às concorrentes num setor regulado até a alma, ela não está te dando uma nota neutra, está te avisando que você comprou um título de renda fixa disfarçado de ação.
Concessionária elétrica americana, no fundo, é isso. Você não compete por preço, não compete por inovação radical, não conquista cliente novo com marketing. Você atende o consumidor que mora dentro da sua área de monopólio, cobra a tarifa que a comissão estadual permite cobrar, investe o que a comissão manda investir e tem o retorno sobre capital que a comissão decide ser razoável. O CEO da Pinnacle West e o CEO da concorrente do estado vizinho jogam o mesmo jogo, com as mesmas regras, contra o mesmo adversário invisível: o burocrata que define a margem. Por isso "performam em linha com os pares". Não há outro caminho possível dentro daquela jaula.
Olha, há uma ironia deliciosa no fato de o setor elétrico americano ser vendido como exemplo de capitalismo enquanto opera como cartel autorizado. O preço da energia não é descoberto pelo encontro de oferta e demanda, é arbitrado em audiência pública por um conselho de funcionários públicos que escutam advogados de empresa, advogados de consumidor e lobistas ambientais antes de decidir, no atacado, quanto cada residência vai pagar para acender a luz. Chamar isso de mercado é o mesmo que chamar de banquete o cardápio fixo do refeitório do quartel.
E o investidor que compra Pinnacle West sabe disso, mesmo que não articule. Ele não está apostando no talento empresarial de ninguém, está apostando que o regulador vai continuar bonzinho, que o Arizona vai continuar crescendo demograficamente, que a transição energética imposta de cima não vai entortar demais a estrutura de custos e que o Federal Reserve não vai detonar o valor presente dos fluxos futuros com mais uma rodada de aventura monetária. São quatro apostas políticas embutidas no que se vende como ativo econômico. Quem segue o dinheiro percebe que o lucro da concessionária não é fruto de eficiência produtiva, é renda extraída de uma posição protegida por lei, e o acionista é só o último elo de uma cadeia que começa na canetada do regulador.
Daí a piada da classificação morna. O analista não está cobrindo a empresa, está cobrindo o humor do regulador, a curva de juros e o calendário político do Arizona. Tudo o mais é detalhe operacional. Quando ele diz que o papel vai performar como os pares, está dizendo, sem dizer, que o destino daquele negócio não está nas mãos da diretoria da Pinnacle West, está nas mãos de gente que nunca arriscou um dólar na vida e decide o retorno sobre capital alheio com a tranquilidade de quem distribui números num quadro branco. Capitalismo de verdade tem risco empresarial; isso aqui é loteria regulatória com camisa engomada.
O recado para o leitor que ainda acredita em mercado livre é o de sempre: quando o Estado decide o preço, decide o investimento e decide o lucro, sobra para o investidor o papel de financiar a engrenagem em troca de migalhas previsíveis. Pode ser bom negócio em termos de risco, ninguém está negando. Mas que ninguém venda isso como triunfo do empreendedorismo americano, porque não é. É apenas a velha aliança entre poder político e capital cativo, vestida com gravata e planilha de Excel.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.