Enquanto os mísseis continuam voando sobre o Golfo Pérsico e o Pentágono queima bilhões por semana numa guerra que já ninguém sabe mais explicar direito, o telefone que mais toca no planeta está em Pequim. Líderes europeus, asiáticos, latino-americanos e até do próprio Oriente Médio pegaram o avião ou o telefone vermelho para falar com Xi Jinping. Não porque o chinês tenha virado santo, mas porque o vácuo de liderança deixado por Washington virou um buraco negro, e a natureza geopolítica, como a econômica, abomina o vácuo. Quem tem ouro faz a regra; quem tem dívida de trinta e seis trilhões pede por favor.

Olha, ninguém aqui tem ilusão sobre o regime chinês. É uma tirania tecnocrática que faz Orwell parecer otimista. Mas o ponto é outro, e precisa ser dito com clareza cirúrgica. Durante setenta anos o establishment americano convenceu o mundo de que a Pax Americana era o custo necessário da liberdade global. Agora, depois de guerras intermináveis no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria, e agora no Irã, o mundo olha para a fatura e pergunta: liberdade de quem, exatamente? Porque do lado de cá, o que se vê é inflação estrutural, classe média pulverizada, indústria desmontada e um império que não consegue mais nem vencer militarmente um país do tamanho do Alasca.

E aqui entra a parte que ninguém da imprensa financeira quer tocar. Cada míssil disparado no Golfo é um empurrãozinho a mais no preço do barril, que é um empurrãozinho a mais na inflação americana, que obriga o Fed a escolher entre duas humilhações: manter juros altos e afundar a dívida pública, ou cortar juros e afundar a moeda. Xi Jinping está sentado numa cadeira de veludo assistindo ao espetáculo, com reservas em ouro que ninguém sabe ao certo quantas toneladas são, e vendo o dólar perder status de reserva em tempo real. A des-dolarização não é teoria da conspiração de bitcoiner; é planilha do BIS, é acordo de moeda local entre China, Rússia, Brasil, Arábia Saudita, Irã. Me diz uma coisa, você acha que isso é coincidência?

O que se vê na manchete é um presidente chinês recebendo ligações importantes. O que não se vê é o mecanismo silencioso pelo qual o poder migra. Cada guerra que Washington trava, imprime dinheiro para financiar, e empurra a conta para o resto do mundo, é uma razão a mais para os bancos centrais estrangeiros trocarem títulos do Tesouro americano por ouro físico e por yuan. O império americano não está sendo derrotado por um exército, está sendo derrotado pela própria impressora. É o velho ciclo de sempre: moeda fiduciária, guerra permanente, expansão de crédito, bolha, crise, confisco do poupador, e no fim da linha um concorrente com os pés mais firmes esperando a vez dele.

E os europeus? Ah, os europeus são o capítulo mais patético dessa história. Sancionaram a Rússia, destruíram a própria indústria energética alemã, agora compram gás mais caro dos americanos, e enquanto isso mandam delegação atrás de delegação para Pequim implorar por terras raras, painéis solares, peças de carros elétricos e qualquer migalha de bom humor comercial. Construíram durante oitenta anos um continente que se recusa a pensar, a produzir energia, a ter filhos e a se defender, e agora descobrem que o mundo real não é uma ONG. O mundo real tem recursos finitos, tem inimigos reais, e tem preços que não obedecem a decreto de Bruxelas.

A lição que o contribuinte brasileiro precisa tirar disso é brutal e simples. Toda vez que um governo sai financiando aventura externa com dinheiro impresso, a conta volta em forma de inflação, de imposto novo, de dívida que seus netos vão pagar. O Brasil, que flerta perigosamente com essa mesma lógica de gasto sem fim, deveria olhar para o espelho americano e ver o próprio futuro caso continue na rota do populismo fiscal. Xi não ganhou essa partida por mérito; ganhou porque o adversário resolveu se suicidar lentamente, imprimindo, bombardeando e regulando até a morte. Ordem mundial não se perde num dia, se perde num orçamento de cada vez.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.