Xi Jinping recebeu em Pequim, na mesma semana, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi Sheikh Khaled e o presidente vietnamita To Lam. Três continentes, três visitas de Estado, três sessões de acordos assinados com caneta dourada e sorriso protocolar. No intervalo entre as cerimônias, o líder chinês encontrou tempo para declarar, com a solenidade que só um autocrata de partido único consegue manter sem rir, que a ordem internacional está "desmoronando em desordem" e que o mundo "não deve retornar à lei da selva". Quer dizer, o comandante de um regime que mantém campos de reeducação em Xinjiang, que sufocou Hong Kong sem piscar e que manipula sua moeda como quem ajusta o termostato de casa está preocupado com a civilização. Tocante.

O que se vê na superfície é diplomacia. O que se passa por baixo do pano é outra coisa. Sánchez, que já visitou Pequim quatro vezes em quatro anos, assinou acordos de "energia verde" e "desenvolvimento sustentável", aqueles pacotes vagos que servem para justificar a viagem nos jornais domésticos enquanto a negociação real acontece em salas sem câmera. Xi teve a elegância de dizer que a Espanha está "do lado certo da história", uma frase que, saindo da boca de quem controla o maior aparato de censura do planeta, deveria provocar calafrios em qualquer espanhol com dois dedos de memória. Mas Sánchez não foi a Pequim por convicção ideológica. Foi porque a Europa, espremida entre as tarifas americanas de Trump e a dependência energética que ela mesma criou ao apostar tudo em transição verde sem base industrial, precisa de alguém que compre suas azeitonas e venda baterias de lítio a prazo. A China é esse alguém. E o preço, como sempre, não está na etiqueta.

Com os Emirados Árabes, a dança foi ainda mais reveladora. Vinte e quatro acordos bilaterais de comércio e investimento, numa semana em que o Estreito de Ormuz volta a aparecer nos mapas de risco por causa do conflito no Irã. Xi apresentou uma "proposta de quatro pontos para a paz no Oriente Médio", coisa que qualquer estudante de relações internacionais reconhece como o equivalente diplomático de pendurar um quadro sobre a rachadura na parede. Coexistência pacífica, soberania nacional, estado de direito internacional, equilíbrio entre desenvolvimento e segurança. Palavras lindas, vazias como cheque sem fundo. A China não quer paz no Oriente Médio. A China quer petróleo do Golfo fluindo sem interrupção para seus portos, quer rotas comerciais seguras para o Belt and Road, e quer que os Emirados comprem tecnologia Huawei em vez de Ericsson. A paz, se vier, será efeito colateral, não objetivo.

To Lam, o presidente vietnamita, fez sua primeira viagem internacional após a eleição direto para Pequim, o que diz mais do que qualquer comunicado conjunto. O Vietnã, que historicamente desconfia da China como o coelho desconfia da raposa, está sendo puxado pela gravidade econômica. A China é seu maior parceiro comercial. Há conversas sobre o Vietnã comprar aviões Comac em vez de Boeing ou Airbus. Quando um país vizinho que lutou uma guerra contra você em 1979 começa a comprar seus aviões, não é comércio, é dependência estratégica sendo construída com paciência de jardineiro. Xi sabe que cada contrato assinado é um fio a mais na teia. E teias, como se sabe, não são construídas para decoração.

Olha, o teatro da "desordem mundial" tem uma lógica cristalina quando se olha pelo ângulo correto. Trump ameaça tarifas de 50% sobre a China, a Suprema Corte americana derrubou as tarifas IEEPA de 2025, e uma cúpula Trump-Xi está marcada para maio em Pequim. Nesse cenário, cada líder estrangeiro que Xi recebe esta semana é um cartão de negociação para o jogo de maio. Sánchez representa a Europa que pode ser afastada de Washington. Sheikh Khaled representa o petróleo do Golfo que pode fluir para leste em vez de oeste. To Lam representa o Sudeste Asiático que pode se alinhar a Pequim em vez de ao Quad. A "desordem" que Xi lamenta em público é, em privado, a melhor oportunidade estratégica que a China teve em décadas. A fragmentação do Ocidente não é um problema para Pequim. É o plano de negócios.

Me diz uma coisa: quando foi que lamentar o caos virou estratégia de quem lucra com ele? A resposta é simples, sempre foi. Todo império em ascensão chora a decadência da ordem anterior enquanto ergue a própria. A diferença é que Xi faz isso com a câmera ligada, tradução simultânea e vinte e quatro acordos de comércio na pasta. A desordem mundial existe, sim. Mas quem acha que a China é a solução precisa entender uma coisa elementar: Pequim não quer consertar a ordem internacional. Quer substituí-la por uma em que o regulador, o credor e o árbitro sejam todos o mesmo sujeito, com sede na Praça Tiananmen. A ordem que Xi lamenta não é a ordem que ele quer de volta. É a ordem que ele quer enterrar.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.