A agência de viagens indiana Yatra Online divulgou resultados abaixo da expectativa de receita no quarto trimestre, e a reação do mercado foi a coreografia que se repete tantas vezes que já parece roteiro decorado: a ação subiu. Não desceu, não estagnou, subiu. Receita pior que o esperado, papel valorizado. Quem ainda acredita que bolsa é termômetro racional de desempenho empresarial precisa rever os fundamentos, porque o que se vê hoje, do Nasdaq ao Bombay Stock Exchange, é outra coisa.

O que sustenta esse tipo de reação não é o desempenho operacional da companhia, é o oceano de liquidez que os bancos centrais despejaram no sistema na última década e meia, e que continua sendo bombeado sob nomes diferentes a cada crise. Quando o dinheiro é abundante e barato, qualquer ativo flutua, independentemente de mérito. A flutuação não vem da empresa, vem da impressora. A diferença entre uma empresa boa e uma empresa medíocre se apaga quando há crédito artificial sobrando para perseguir qualquer coisa que tenha um ticker.

Olha, há uma coisa que ninguém quer dizer em voz alta nos relatórios dos analistas de banco: o mercado deixou de precificar empresas e passou a precificar expectativas sobre o próximo movimento do Federal Reserve, do Banco da Reserva da Índia, do Banco Central Europeu. A receita real da Yatra é um detalhe quase folclórico diante da pergunta que de fato move o capital: quanto de liquidez vem por aí? Se vem mais, compra-se tudo. Se vem menos, vende-se tudo. A empresa virou pretexto, o pretexto virou narrativa, e a narrativa virou preço.

E aqui entra o ponto que os entusiastas das ações em alta jamais querem encarar: o que se vê é a cotação subindo, festejada por matéria otimista de portal financeiro. O que não se vê é a poupança do trabalhador comum sendo corroída pela inflação que essa mesma liquidez produz, é o capital sendo desviado de projetos genuinamente produtivos para apostas em multiplos de receita inflados, é o pequeno investidor entrando no topo achando que o mercado descobriu algo que ele não viu. Descobriu, sim: que pode subir sem motivo, e que pode cair também sem motivo, porque motivo já não importa.

Quem se beneficia dessa engrenagem é sempre o mesmo grupo, e seguir o dinheiro não exige doutorado em finanças. Gestores institucionais que compraram antes na baixa, executivos com pacotes em opções, bancos de investimento que cobram taxa em cada giro, consultores que vendem o sonho da próxima alta. Quem paga é o aposentado indiano, brasileiro, americano que acreditou que o mercado capitalista funcionava por mérito empresarial e descobriu, tarde demais, que estava jogando num cassino em que a casa muda as regras a cada rodada conforme o humor do presidente do banco central.

O capitalismo de verdade, aquele que produz riqueza e prosperidade, é o que premia quem entrega resultado e pune quem decepciona. O que se assiste hoje é a paródia disso, um sistema em que receita abaixo do esperado é recebida com aplauso porque os investidores apostam que o próximo socorro monetário vem aí. Não é mercado livre, é mercado anestesiado. E toda anestesia, mais cedo ou mais tarde, passa. Quando passar, não vai ser bonito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.