A YETI Holdings reportou números acima do consenso e, em vez de cortar projeções como virou esporte nacional entre as varejistas, fez o movimento inverso: elevou o guidance anual. As ações dispararam no pregão, e o mercado, com toda a sua falta de paciência para narrativa bonita, fez o que sabe fazer melhor quando ninguém está mexendo no termostato à força, premiou quem entregou. É uma cena banal na superfície, e ao mesmo tempo profundamente subversiva, porque contradiz frontalmente o discurso oficial de que o consumidor americano está de joelhos esperando socorro estatal.
Olha, o ponto interessante não é o trimestre em si, é o que o trimestre revela. A YETI vende cooler de quatrocentos dólares, garrafa térmica de cinquenta, mochila de duzentos. Não é item de primeira necessidade, não é commodity subsidiada, não é beneficiário de crédito direcionado do BNDES da vida. É produto premium, discricionário, daqueles que qualquer manual keynesiano diria que deveria estar encalhado na prateleira em ambiente de juros altos e suposta recessão iminente. Pois bate estimativa e sobe guidance. Quer dizer, ou o consumidor não está tão moribundo quanto pintam, ou existe uma fatia da economia que opera num universo paralelo onde decisão de compra ainda é feita por gente adulta avaliando se o produto entrega o que promete.
Me diz uma coisa, quantas vezes você ouviu nos últimos dois anos que o capitalismo americano estava em colapso, que sem estímulo federal nada andaria, que o varejo precisava de injeção pública para sobreviver? E aí, no meio do funeral anunciado, uma empresa de bens duráveis para outdoor, sem padrinho em Washington, sem linha especial de financiamento, sem cota reservada em compra governamental, simplesmente cresce porque o produto é bom e a marca é respeitada. É o que sempre foi e sempre será o motor real da prosperidade, gente fazendo coisa que outra gente quer, trocando voluntariamente, sem armas apontadas nem subsídio cruzado. Tudo o resto é coreografia de palácio.
E aqui mora a lição que ninguém quer ensinar na faculdade de economia. O guidance subiu não porque o Fed cortou juros, não porque o Tesouro mandou cheque, não porque algum czar do consumo decretou aquecimento. Subiu porque a empresa controlou estoque, lançou produto novo no momento certo, segurou margem e o consumidor continuou achando que o cooler vale o preço. É a velha equação de quem entrega valor real, completamente invisível para o economista de banco que só sabe ler PIB agregado e desconfia de tudo que cresce sem autorização do regulador. O mercado, esse organismo descentralizado que ninguém comanda e todo mundo participa, simplesmente sabe coisas que nenhum comitê em Brasília ou Washington vai descobrir.
Vale o contraste com o tablado tupiniquim, onde a moda é exigir socorro estatal para qualquer setor que tossir. Companhia aérea pede, montadora pede, varejista pede, até banco com lucro recorde pede. A lógica do empresário brasileiro virou, em larga medida, lobby disfarçado de planejamento estratégico, e o resultado é uma economia onde o sucesso depende menos do consumidor satisfeito e mais do despacho favorável no diário oficial. A YETI lembra, sem querer dar lição a ninguém, que existe um caminho mais antigo e mais honesto, fazer produto bom, cobrar o que ele vale, e deixar o cliente decidir. Esse caminho não passa pelo gabinete do ministro.
O recado para quem quer escutar é direto. Empresa que sobe sem padrinho prova que o mercado funciona quando deixam ele funcionar. Empresa que só sobe com subsídio prova exatamente o contrário, e ainda cobra a conta do contribuinte para sustentar a ilusão. Da próxima vez que um analista de televisão disser que o consumidor morreu, vale lembrar que ele talvez tenha apenas decidido parar de comprar o que estava ruim. Quem entrega, vende. Quem chora, pede pacote.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.