Existe um momento muito específico em qualquer ciclo especulativo em que os céticos param de falar. Não é quando as evidências mudam. É quando o consenso fica pesado demais para contradizer sem custo social. Esse momento chegou para a tese do overbuild de inteligência artificial. Há alguns trimestres, analistas respeitados comparavam o atual surto de gastos com data centers à fibra ótica dos anos 1990: infraestrutura construída em ritmo alucinante, capital destruído em escala industrial, e uma geração de investidores deixada para trás enquanto a tecnologia, décadas depois, finalmente entregava o que prometia. A comparação era perturbadoramente precisa. E então, de repente, ninguém mais a faz.

Os números não ficaram menos absurdos. A soma comprometida pelos cinco maiores grupos de tecnologia dos Estados Unidos para infraestrutura de IA em 2026 ultrapassa 700 bilhões de dólares. Uma empresa sozinha, a Amazon, anunciou 200 bilhões em despesas de capital, e suas ações caíram entre 8 e 10% na sequência porque até os entusiastas ficaram sem ar. A Microsoft caminha para 120 bilhões no ano fiscal. O braço digital do Google revisou sua estimativa de gastos três vezes para cima desde o início do ciclo. A Moody's publicou relatório identificando risco real de superconstrução e retornos fracos. Nada disso mudou. O que mudou foi o humor. E o humor, no mercado financeiro, vale mais que a realidade enquanto dura.

Siga o dinheiro e você entende a mudança de tom. Quando o Goldman Sachs publica relatório abraçando a tese das "picaretas e pás da IA", está dizendo ao mundo que seus clientes têm posições relevantes em Nvidia, em fabricantes de equipamento para data centers, em fornecedoras de energia para essas instalações. Quando a narrativa muda de "isso é uma bolha" para "na verdade a demanda está reprimida", não é porque novos dados chegaram, é porque dinheiro institucional já está posicionado e precisa que o varejo entre para sustentar o preço. A arquitetura do argumento é sempre a mesma: primeiro os grandes entram, depois os analistas descobrem que o risco era menor do que parecía, depois a imprensa financeira declara morta a preocupação com excesso. O ciclo é antigo como a tulipa holandesa e tão eficiente quanto.

O detalhe que a memória coletiva do mercado prefere esquecer é que a fibra ótica dos anos 1990 não foi um erro de tecnologia. A tecnologia funcionou magnificamente. Foi um erro de timing e de precificação. Quem perdeu tudo não apostou na tecnologia errada; apostou no momento errado e pagou o preço errado. A internet de fato transformou o mundo. Só que as empresas que a construíram não lucraram com isso na proporção do capital destruído. Os consumidores e as empresas da geração seguinte capturaram o valor. Há alguém hoje garantindo que a IA não seguirá exatamente esse caminho? Há. São os mesmos que estavam garantindo, há seis meses, que não havia risco de superconstrução.

O que a Bloomberg batizou de "mudança radical no pensamento dos investidores" é, visto de fora da euforia, uma coisa muito mais simples: capitulação dos céticos diante do momentum. Não é a primeira vez que isto acontece e a história documenta os episódios com cruel regularidade. A questão não é se a inteligência artificial vai transformar a economia, porque provavelmente vai. A questão é quem vai pagar pela construção do alicerce e quem vai colher os frutos quando a poeira baixar. Historicamente, o contribuinte que financia o subsídio, o investidor que entra no pico e o trabalhador deslocado pela automação pagam. Os acionistas de longo prazo das plataformas sobreviventes colhem. O problema é que no calor do momento ninguém consegue distinguir qual plataforma vai sobreviver, e a certeza que se vende agora por 700 bilhões de dólares é exatamente o tipo de certeza que, em retrospecto, sempre parece ingenuidade.

Nenhuma das perguntas difíceis foi respondida. A demanda por capacidade computacional vai crescer na proporção do investimento? Os modelos de linguagem encontrarão casos de uso rentáveis o suficiente para justificar a infraestrutura que os suporta? A energia elétrica necessária para alimentar esses data centers será produzida sem criar gargalos que encareçam tudo o mais? O silêncio dos que antes gritavam bolha não é resposta para nenhuma dessas perguntas. É apenas a prova de que, quando o dinheiro grande já entrou, o mercado prefere rezar a raciocinar. E reza muito bem, com toda a solenidade de um crente que sabe que precisa acreditar para não perder a fé antes de ver o milagre.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.