A notícia chega seca, quase tímida no rodapé do mercado, mas carrega uma confissão que vale mais do que qualquer release institucional: a Z Squared encerrou seu arranjo de co-CEOs e colocou David Halabu sozinho no topo da estrutura, com Michelle Burke saindo pela porta lateral do organograma. Traduzindo do corporativês para o português, a empresa testou o modelo da moda, aquele que os consultores de governança vendem em apresentações coloridas, e descobriu na prática o que qualquer fazendeiro do interior sabe desde sempre: cavalo só anda direito quando tem um cavaleiro.
A liderança compartilhada virou cosmético dos anos recentes, vendida como prova de maturidade, diversidade decisória, equilíbrio de talentos e outros adjetivos que servem para qualquer coisa porque não significam nada. O fato concreto, observável, repetível, é que toda vez que uma cadeira de comando é dividida entre dois, três ou um comitê, o tempo de decisão se multiplica, a responsabilidade se evapora e os funcionários aprendem rápido a manipular o desencontro entre os chefes. Quando o resultado aparece, ninguém assina. Quando o prejuízo aparece, ninguém estava lá. É a versão executiva do velho ditado sobre cozinheiro demais estragando o caldo.
Vale a pena seguir o dinheiro nesse tipo de manobra, porque ela raramente é gratuita. Empresas listadas adotam co-CEOs por motivos que quase nunca aparecem no comunicado oficial: acomodar herdeiros, neutralizar uma facção do conselho, agradar fundos que cobram representatividade, postergar uma briga que ninguém quer encarar. O arranjo é político antes de ser operacional, e o mercado, que é mais sábio do que parece, sempre desconfia. Não por acaso, ações de companhias com chefia dividida costumam negociar com desconto, porque o investidor sente no bolso o que o consultor mascara no PowerPoint.
Há também a lição mais antiga, ignorada com regularidade pelos profetas da modernidade administrativa: instituições que sobreviveram séculos, do exército romano à direção de orquestra, sempre concentraram o comando final em uma única vontade, justamente porque entenderam que coordenação humana exige um vértice. A pirâmide não é capricho hierárquico, é geometria da realidade. Quando se tenta achatar a ponta para parecer mais democrático, o que se obtém não é horizontalidade virtuosa, mas paralisia decorada com vocabulário inspirador.
A saída de Burke e a consolidação de Halabu, portanto, não deveriam ser lidas como derrota individual de ninguém, e sim como vitória tardia do princípio da realidade sobre a fantasia gerencial. A Z Squared está fazendo, com atraso, o que deveria ter feito no primeiro dia: definir quem manda, para que seja possível, depois, cobrar quem respondeu. Sem responsabilidade individual identificável, não há gestão, há ritual. E ritual, no mercado, custa caro até o acionista perder a paciência.
Resta saber se Halabu sustentará sozinho o peso que dois carregavam mal, e essa é a única pergunta verdadeiramente interessante daqui para frente. O resto, as notas de agradecimento, os elogios mútuos, a coreografia diplomática da despedida, é só verniz para encobrir o óbvio que ninguém quer dizer em voz alta: o experimento da chefia em dupla terminou porque não funcionava, e fingir o contrário seria continuar pagando pelo capricho com dinheiro alheio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.