A Zâmbia anunciou que abriu conversas com credores para recomprar parte dos títulos da sua dívida soberana, e quem acompanha esse tipo de assunto há mais de cinco minutos já sabe como termina o filme. País africano rico em cobre, governo que gastou além da conta na década passada, default em 2020, reestruturação arrastada com o Clube de Paris e com a China, e agora a tentativa de fazer uma faxina contábil oferecendo recompra de papéis a preço de banana. O figurino muda, o enredo é o mesmo desde que governo descobriu que podia tomar emprestado em dólar e pagar em promessa.
Olha, recompra de título soberano nunca é gesto de saúde fiscal. É confissão. Quando o governo vai ao mercado oferecer comprar de volta a própria dívida com desconto, está dizendo, sem dizer, que o papel que ele mesmo emitiu hoje vale uma fração do valor de face. E quem segura na ponta? Fundos de pensão, bancos locais, investidores que acreditaram na promessa solene de um Tesouro que agora propõe um calote elegante, com gravata e assessoria jurídica. Calote é calote, mesmo quando vem embrulhado em comunicado oficial e linguagem técnica de relatório do FMI.
Vale seguir o dinheiro, porque é aí que mora a piada. A dívida zambiana cresceu absurdamente entre 2011 e 2020, financiando obras de infraestrutura, projetos de aeroporto, estradas que ninguém usa e um exército de consultores internacionais que sempre aparece quando há dinheiro de empréstimo correndo solto. Os pobres do interior do país, que vivem como viviam há cinquenta anos, nunca viram um centavo daquilo. Mas vão pagar a conta agora, em forma de moeda desvalorizada, importação encarecida, serviço público sucateado e imposto sobre o pouco que conseguem produzir. A regra é universal e não falha nunca: a festa é dos políticos e dos contratantes amigos, a ressaca é do contribuinte anônimo.
E há a parte que ninguém quer encarar de frente. O credor institucional que comprou esses bônus sabia exatamente o que estava fazendo. Comprou risco de país africano endividado com taxa de juros gorda justamente porque o risco era altíssimo. Agora, na hora do aperto, vai chorar nas pernas do FMI pedindo socorro coordenado, vai pressionar pela mesma engenharia de sempre, troca de papel velho por papel novo com prazo mais longo e cupom menor, e ainda terá a cara de pau de dizer que é gesto de cooperação internacional. Cooperação coisa nenhuma, é socialização de prejuízo entre quem apostou errado e quem nunca foi consultado.
O que se vê é o comunicado oficial, a reunião em Lusaka, o sorriso amarelo do ministro das Finanças prometendo disciplina fiscal. O que não se vê é a inflação que vai vir, o capital produtivo que vai fugir, o pequeno empresário zambiano que não conseguirá crédito porque o Tesouro sugou toda a poupança nacional para tapar o buraco que ele mesmo cavou. Não se vê o jovem que emigra, a fábrica que não abre, a mina que reduz operação porque o ambiente regulatório virou areia movediça. Esses custos não saem em manchete, mas são eles que matam o futuro do país, lentamente, em silêncio.
No fim das contas, a história da Zâmbia é a história de quase todo país que entrou no século XXI confundindo crédito barato com riqueza real. Imprime-se papel, emite-se bônus, gasta-se em obra faraônica, e quando a maré vira descobre-se que nada daquilo era riqueza, era ilusão contábil financiada por estrangeiro. A recompra anunciada é só o último capítulo de um livro que ninguém em Lusaka teve a coragem de não escrever. E o próximo capítulo, daqui a dez ou quinze anos, já está sendo redigido, com os mesmos personagens, os mesmos consultores e o mesmo contribuinte pagando a conta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.