Três mortos em Moscou neste domingo, e o presidente ucraniano fazendo questão de exibir o alcance do arsenal como quem mostra a cicatriz ao agressor. O ataque, descrito como o mais potente já realizado contra a capital russa, não é apenas notícia militar, é fato econômico, político e moral de primeira grandeza. Quem invadiu um país vizinho sob o pretexto messiânico de "desnazificar" agora descobre, pela via mais cara possível, que o vizinho aprendeu a responder. E responde dentro do quintal do imperador.

A primeira lição é a mais antiga do mundo, e a que os planejadores de guerra teimam em esquecer geração após geração: nenhuma aventura militar termina onde o agressor planeja. Quando o Kremlin moveu suas colunas em 2022, fazia conta de blitzkrieg de fim de semana. Quase quatro anos depois, o que se vê é uma economia russa transformada em economia de guerra permanente, juros nas alturas, rublo apodrecendo, indústria civil sucateada para alimentar a fábrica de tanques, e agora a própria capital sob o estrondo de drones e mísseis que ninguém imaginava existir do lado ucraniano. O que se vê em Moscou é caro. O que não se vê é catastrófico: as fábricas que não foram construídas, o petróleo que está sendo vendido com desconto a chineses e indianos, os jovens que estão morrendo em Donetsk em vez de produzir, a fuga de cérebros que ninguém mais consegue medir.

E aqui entra a parte que nenhum noticiário ocidental gosta de tocar, porque desmonta a narrativa preferida das duas torcidas. Siga o dinheiro. Quem está faturando alto com essa guerra que não acaba? Não é o soldado russo no front, nem o camponês ucraniano que perdeu a casa. São os complexos industriais militares dos dois lados do Atlântico, são os fundos que especulam em commodities, são os intermediários que driblam sanções vendendo o mesmo barril três vezes. A guerra tem uma economia política própria, e essa economia tem interesse explícito em que ela dure mais um trimestre, e mais outro, e mais outro. Cada míssil que cai em Moscou neste domingo é também uma fatura emitida em algum escritório de Washington, de Berlim, de Pequim, e sim, do próprio Kremlin, que descobriu na economia de guerra uma forma conveniente de centralizar tudo o que ainda restava de descentralizado por lá.

O alcance das armas ucranianas que Zelenski exibe com orgulho é também um recado para o resto do mundo, e o recado é desconfortável. A era em que duas ou três potências decidiam o destino dos pequenos a portas fechadas acabou. A tecnologia militar barateou, drones custam dezenas de milhares onde caças custam dezenas de milhões, e qualquer país de médio porte com engenharia decente pode hoje atingir o coração simbólico de um império. Isso é, ao mesmo tempo, a boa e a má notícia do século. Boa, porque encarece a aventura imperial e devolve algum poder de barganha aos pequenos. Má, porque multiplica os pontos de ignição num planeta já saturado de ressentimentos históricos não resolvidos.

Há ainda a dimensão que os realistas de café se recusam a ver: a moral importa, e importa muito. Quem começou esta guerra não foi a Ucrânia. Quem violou fronteiras reconhecidas, quem bombardeou maternidades, quem deportou crianças, quem transformou cidades inteiras em ruínas, tem nome e endereço. Que agora descubra, pela via empírica, que o monopólio da violência projetada para fora do território não é mais seu, é justiça poética antes de ser estratégia militar. Quem semeia tempestade não tem o direito de reclamar quando o vento vira. E o vento, neste domingo, virou para o lado de Moscou.

Resta a pergunta que ninguém em Brasília quer fazer em voz alta, ocupados que estão em equilibrismo diplomático para agradar os dois lados e desagradar os princípios. Por quanto tempo mais o Ocidente vai fingir que paz se compra com concessão a quem aprendeu que concessão é fraqueza? E por quanto tempo mais o Brasil vai fingir que neutralidade entre invasor e invadido é sofisticação diplomática, quando é apenas covardia travestida de prudência? A história não absolve a equidistância calculada. Absolve quem tomou partido pelos princípios certos, ainda que tarde, ainda que pouco. Tudo o mais é figuração.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.