Romeu Zema saiu de Minas Gerais com uma metáfora na mão e uma candidatura no bolso. Disse que o PL tem "frutas podres" e que o PT pratica populismo em ano eleitoral. Ambas as afirmações são verdadeiras, o que as torna perfeitamente inúteis como diagnóstico político, porque todo partido brasileiro tem frutas podres, e todo partido pratica populismo em ano eleitoral. Isso não é denúncia. É a descrição do cardápio.
O que Zema está fazendo, com uma habilidade que merece reconhecimento técnico, é a manobra mais antiga do teatro eleitoral: apresentar-se como o único adulto numa sala de crianças mal-criadas. O Novo seria, nas palavras dele, "talvez o partido mais à direita do país". Talvez. A hesitação já revela a armadilha, porque uma convicção que começa com "talvez" não é convicção, é posicionamento de marketing. E marketing, no fundo, é o que separa um político honestos dos demais, só que ao contrário do que você imagina.
Siga o raciocínio concreto, não o discurso. O PL abriga Bolsonaro e seus herdeiros políticos, uma legenda que absorveu fisiologismo, emendas e barganha com a voracidade de quem não comeu em semanas. O PT governa com o mesmo manual clientelista que usava nos anos 2000, só que agora com a solenidade de quem finalmente voltou para casa e não admite questionamento. Entre os dois, Zema quer instalar uma terceira via que seja genuinamente liberal, ou seja, quer fazer o que o Brasil ainda não conseguiu fazer em duzentos anos de república: eleger alguém que de fato acredite que o governo deve encolher. É uma aposta corajosa. É também uma aposta que o próprio sistema eleitoral foi arquitetado para frustrar.
O problema da direita brasileira não é falta de discurso. É excesso de discurso e escassez de ação. Cada ciclo eleitoral produz um candidato que promete cortar gastos, reduzir o Estado, libertar o empreendedor e devolver o dinheiro ao contribuinte. Cada ciclo termina com o mesmo contribuinte pagando mais imposto, o mesmo Estado mais gordo e o mesmo candidato explicando por que as circunstâncias foram mais fortes que as convicções. O eleitor que acredita nessa narrativa pela terceira ou quarta vez não é otimista, é obstinado. E há uma diferença importante entre as duas coisas.
Quanto ao PT e o tal populismo eleitoral, a crítica de Zema é correta e, precisamente por isso, é fútil. Chamar o PT de populista em ano eleitoral é como reclamar que chove no inverno. O que o eleitor deveria exigir não é o diagnóstico, mas a alternativa. E a alternativa precisa ser mais do que um homem de terno que administrou bem Minas Gerais, porque administrar bem um estado brasileiro, dentro das regras do pacto federativo atual, é um feito honroso, mas não necessariamente uma prova de que alguém está preparado para enfrentar o que o governo federal representa: uma máquina de transferência compulsória de riqueza, aparelhada ao longo de décadas por interesses que não se dissolvem com uma boa intenção e um slogan de campanha.
A fruta podre que Zema não menciona é a própria natureza do sistema. Você pode trocar as frutas, colocar frutas novas, importar frutas de outro pomar. Mas se o pomar está envenenado pelo solo, pela água e pelo clima, a próxima colheita vai repetir o mesmo padrão. O Brasil tem um problema de solo, não de fruta. E enquanto os candidatos continuarem disputando quem tem a fruta menos podre, em vez de discutir se faz sentido manter este pomar neste tamanho, o eleitor continuará comprando o produto e voltando para casa com a mesma enxaqueca de sempre.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são de O Algoz.