Vamos ao fato, sem a maquiagem dos releases. A Zentalis subiu ao palco da Wells Fargo para anunciar que o azenosertib, seu inibidor de WEE1 para câncer de ovário, agora enxerga uma rota regulatória "mais definida" junto à FDA. Note bem o vocabulário: ninguém disse que a molécula ficou mais potente, que a sobrevida global saltou, que o perfil de toxicidade melhorou. Disseram que o caminho até o carimbo do órgão federal americano ficou mais legível. E o mercado, obediente, aplaudiu. Ações sobem, analistas revisam preço-alvo, e a plateia finge não notar que o ativo mais valioso de uma farmacêutica de estágio clínico deixou de ser a ciência para ser o relacionamento com o burocrata.
Quer dizer, este é o retrato fiel do capitalismo de compadrio farmacêutico que ninguém quer discutir em voz alta. A FDA, com seu labirinto de exigências, protocolos e comitês, transformou o desenvolvimento de drogas num jogo em que o tamanho do departamento regulatório importa mais do que o tamanho do laboratório. Uma pequena empresa que descobre algo revolucionário morre esperando o carimbo; uma média que tem consultor certo, ex-funcionário da agência bem posicionado e capital para atravessar dez anos de ensaios chega ao mercado. A conta desse pedágio, obviamente, quem paga é o paciente terminal que não vive o suficiente para ver o remédio aprovado, e o contribuinte americano que banca o aparato de fiscalização que sufoca a inovação em nome de protegê-lo.
Olha, siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. A Zentalis queima caixa há anos, como toda biotech pré-receita, e depende de rodadas de captação para sobreviver. Cada anúncio de "clareza regulatória" é combustível para o próximo aumento de capital, cada aumento de capital dilui os acionistas antigos e enriquece os bancos que estruturam a operação, e a Wells Fargo, que hospedou o evento, é justamente o tipo de instituição que ganha comissão gorda quando essas empresas emitem novas ações. O palco não é neutro; é um leilão disfarçado de conferência científica, onde executivos vendem esperança a gestores de fundos que precisam justificar posições em setores da moda.
E aqui entra o que ninguém vê. Enquanto celebramos a "vitória regulatória" da Zentalis, quantas moléculas potencialmente superiores estão engavetadas em laboratórios menores que não têm dinheiro para contratar o time de sessenta pessoas necessário para dialogar com a FDA? Quantos pesquisadores brilhantes abandonaram a oncologia porque o custo médio de aprovar uma droga passou de dois bilhões de dólares? A janela quebrada aqui não é econômica, é humana: pacientes morrem esperando terapias que existem no papel mas não sobrevivem ao pedágio burocrático. O emprego criado na consultoria regulatória de Washington é visível; a vida perdida do paciente que não chegou ao ensaio clínico é invisível.
O caso serve também de espelho para o Brasil, onde a Anvisa reproduz o modelo americano com atraso de cinco anos e um terço da competência técnica. Nossa biotech nacional é praticamente inexistente porque ninguém em sã consciência investe capital de risco num ambiente onde o carimbo pode demorar oito anos e o preço final ser tabelado pela CMED. O resultado é que dependemos das Zentalis do mundo, pagamos o preço do monopólio regulatório em dólar e ainda achamos que estamos sendo protegidos. A proteção do consumidor, quando exercida pelo Estado com poder de vida e morte sobre mercados, sempre acaba protegendo os incumbentes contra os desafiantes.
A moral da história é uma só, e não vem no press release: numa indústria em que o ativo mais valioso é a relação com o regulador, o próximo grande medicamento não será o mais inovador, será o mais bem representado em Washington. E enquanto isso for verdade, celebrar "clareza regulatória" é celebrar a corrente que nos prende, achando que é colar de ouro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.