A notícia chega seca, quase burocrática, dessas que o investidor de plantão lê na diagonal e segue para o gráfico do dólar. A Zentek, companhia canadense de tecnologia de grafeno, concluiu uma captação privada de dezoito milhões de dólares canadenses em esforços restritos, aquele formato enxuto em que a empresa conversa diretamente com investidores qualificados e fecha o cheque sem o circo regulatório que transforma qualquer oferta pública em novela de oito meses. Parece pouco, parece detalhe técnico de uma small cap perdida na bolsa de Toronto. Não é. É um retrato em miniatura da diferença entre uma economia que ainda respira e uma economia que vive entubada na UTI da burocracia.

Pense no que essa operação significa na prática. Uma empresa precisou de capital, encontrou gente disposta a apostar nela, combinou preço, fechou o negócio. O Estado canadense fez o que o Estado deveria fazer em transações entre adultos consentindo: ficou quieto. Não exigiu que a empresa publicasse prospecto de quatrocentas páginas, não pediu que o conselho tivesse cota mínima de representantes de minorias estatisticamente desejáveis, não obrigou a captação a passar por análise de impacto climático feita por consultoria amiga do ministro. O dinheiro saiu de quem o tinha e foi para quem podia produzir algo com ele. É assim que riqueza se forma, e é exatamente isso que se desaprendeu por aqui.

Agora faça o exercício mental de transplantar a operação para o Brasil. A mesma Zentek, com a mesma tecnologia, querendo o mesmo cheque de investidor qualificado. Primeiro, o IOF te recebe na porta cobrando pedágio só para o dinheiro entrar no jogo. Depois, a CVM exige rito, formulário, declaração, contraditório. O BNDES aparece sugerindo que talvez seja melhor pegar dinheiro subsidiado dele em troca de uma cadeirinha no conselho. O fisco fica de olho para taxar o ganho de capital antes mesmo que exista capital. E no fim, quando você finalmente capta, descobre que metade do dinheiro vai embora em compliance de coisa que ninguém pediu para cumprir, criada por gente que nunca produziu nada na vida exceto regulamento.

Quer dizer, o leitor desavisado acha que isso é proteção ao investidor. Não é. Proteção ao investidor seria deixar o investidor decidir onde colocar o próprio dinheiro, com informação clara e responsabilidade pessoal pelo erro. O que se vende como proteção é, na verdade, um arranjo lucrativo para uma classe muito específica de gente, a saber, os escritórios de advocacia que vivem de elaborar pareceres, as consultorias que vivem de adequar empresas à regra do mês, os funcionários públicos que vivem de fiscalizar quem produz, e os políticos que vivem de propor a próxima camada regulatória para mostrar serviço. Cada nova norma que entra no diário oficial é um novo emprego no andar de cima e um novo custo no andar de baixo. Siga o dinheiro e você encontra sempre os mesmos beneficiários, sempre os mesmos pagadores.

O detalhe cruel é que a Zentek faz grafeno, material que está no coração das tecnologias que vão definir as próximas décadas em energia, semicondutores, filtragem e armazenamento. Enquanto o Canadá deixa esse tipo de empresa captar em três dias úteis, o Brasil discute se deveria criar uma agência reguladora específica para nanomateriais, com sede em Brasília, jeton para o conselho consultivo, e cota obrigatória de compras de fornecedores nacionais que ainda não existem. No tempo que se leva aqui para abrir a discussão, lá já se construiu a fábrica, contratou-se o engenheiro, vendeu-se o primeiro lote para a indústria automotiva. A diferença não está na inteligência dos povos, está na quantidade de pedras que cada governo coloca no caminho de quem quer trabalhar.

No fim, a notícia da Zentek é menor pelo valor e maior pelo símbolo. Dezoito milhões de dólares canadenses não mudam o mundo. Mas a possibilidade de captar dezoito milhões sem pedir licença a ninguém muda tudo, porque é dessa possibilidade que nascem os duzentos milhões da próxima rodada, os dois bilhões do IPO, os vinte bilhões de capitalização de mercado dez anos depois. O Brasil escolheu o caminho oposto faz décadas e segue se admirando de por que o capital foge, por que a inovação não vinga, por que o jovem talentoso compra passagem só de ida. Não há mistério algum. Onde o Estado pesa, o capital evapora. E onde o capital evapora, sobra discurso, sobra ressentimento, sobra fila no consulado canadense.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.