A Zoom, aquela mesma que virou meme durante a pandemia e que muitos analistas decretaram morta quando os escritórios reabriram, acaba de embolsar cerca de um bilhão de dólares com a participação minoritária que comprou na Anthropic em 2023. Foi cheque pequeno, decisão de comitê de investimentos, aposta de quem entendia que o produto da fornecedora ia escalar. Sem audiência pública, sem edital, sem secretaria de inovação, sem ministro batendo no peito anunciando "ecossistema". Apenas capital privado correndo risco privado, atrás de retorno privado. E o retorno veio, em quatro dígitos percentuais, no tempo que um programa federal leva para publicar o regulamento da chamada pública.
Olha, isso aqui devia ser estudado em toda escola de administração pública do país, mas não vai ser, porque a lição é insuportável para quem vive de orçamento alheio. Enquanto o BNDES anuncia fundos bilionários para "campeões nacionais de IA" e o governo federal promete soberania tecnológica com dinheiro que ainda não arrecadou, uma empresa que ninguém mais levava a sério multiplicou capital sozinha, sem pedir licença, sem prestar contas a comissão parlamentar, sem ter que justificar contratação de minoria política X ou cota geográfica Y. O sujeito que arrisca o próprio dinheiro pensa diferente do sujeito que distribui o dinheiro dos outros. É detalhe que muda tudo.
E aqui entra a parte que os entusiastas do planejamento estatal sempre fingem não ver. Para cada Anthropic que decola, dezenas de outras apostas privadas viraram pó, e os investidores que erraram pagaram a conta com o próprio bolso, não com a folha de pagamento do contribuinte. Esse é o mecanismo de seleção que torna o capitalismo eficiente, o mesmo mecanismo que o Estado destrói toda vez que socorre banco quebrado, salva empreiteira amiga ou injeta dinheiro em "estatal estratégica" que dá prejuízo há quarenta anos. Quando o erro não dói no bolso de quem errou, o erro se repete eternamente. Quando dói, vira aprendizado. A Zoom acertou porque outros, antes dela, erraram caro.
Tem ainda o pequeno detalhe geopolítico que ninguém quer comentar em voz alta. A Anthropic não nasceu em Pequim, não nasceu em Brasília, não nasceu em Bruxelas. Nasceu onde o capital de risco encontra menos atrito regulatório, menos imposto sobre ganho de capital, menos burocrata achando que entende de tecnologia melhor que o engenheiro. O Brasil tem talento humano comparável a qualquer país do mundo, isso não está em discussão. O que não tem é ambiente onde alguém possa colocar um bilhão de reais em risco sem que três órgãos de controle queiram opinar sobre a cor do tapete da sala da diretoria. E sem ambiente, talento emigra. Ponto final.
O mais delicioso de tudo, e aqui vale o sarcasmo, é que essa mesma Anthropic agora é cortejada por governos que dois anos atrás ignoravam sua existência, oferecendo "parcerias estratégicas" e "memorandos de entendimento" para que ela traga seus modelos para rodar em servidores locais sob curadoria estatal. Quer dizer, o burocrata que não soube identificar a oportunidade quando ela custava trocados agora quer regular, taxar e controlar o produto que valeu bilhões. É o ciclo de sempre. O mercado descobre, o mercado financia, o mercado entrega, e o Estado aparece no final querendo cortar a fita inaugural e cobrar pedágio na entrada.
A lição que a Zoom acaba de dar custa zero ao contribuinte e vale ouro para quem está disposto a aprender. Inovação não se decreta, não se subsidia, não se planeja em cinco anos. Inovação se permite. Tira o pé do pescoço do investidor, reduz a carga tributária sobre ganho de capital, simplifica a regulação societária, garante segurança jurídica de verdade, e fica fora do caminho. O resto a natureza humana resolve sozinha, movida pela mais antiga e mais confiável das motivações, que é ganhar dinheiro fazendo algo que outras pessoas querem comprar. Tudo o mais é conversa para boi dormir em comissão parlamentar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.