Feijão com osso, lentilha com legumes, caldo de frango com o que sobrou na geladeira. Sua bisavó não tinha acesso a uma lista de dez itens numerados publicada num portal de notícias, não tinha nutricionista de plano de saúde nem guia alimentar elaborado por comitê governamental, e ainda assim chegou aos oitenta anos com os dentes na boca e os filhos criados. Isso não é nostalgia, é dado. O conhecimento culinário que sustentou gerações inteiras de trabalhadores brasileiros não foi produzido por especialistas com registro no conselho de classe, foi transmitido de mão em mão, de fogão em fogão, sem subsídio e sem burocracia. E funcionou.
O que mudou, então? Mudou o mercado do conselho. A indústria da orientação nutricional, subsidiada pela indústria alimentícia, alavancada por conselhos federais que funcionam como cartéis de acesso à profissão, e legitimada por agências reguladoras cujos quadros técnicos transitam livremente entre o setor público e as grandes processadoras de alimentos, descobriu que o conhecimento popular é um concorrente inconveniente. A solução foi elegante: transformar o que é óbvio em especialidade, empacotar o senso comum como conteúdo, e vender de volta para o contribuinte aquilo que ele já sabia e que o Estado sistematicamente destruiu ao inflacionar o custo da alimentação básica. Quem paga? O leitor, no preço da sopa de pacote industrializado que a matéria não vai recomendar, mas cujo fabricante patrocina o portal.
Pois é assim que a cadeia funciona. O mesmo Estado que cobra imposto sobre o feijão, sobre o frango, sobre o gás de cozinha, sobre a panela de pressão, sobre o transporte que leva o ingrediente da roça ao mercado, depois financia campanhas de alimentação saudável para a população que não consegue mais comprar o feijão por causa dos impostos. É a lógica perfeita do monopólio da violência aplicado à cozinha: primeiro dificulta, depois resolve. Primeiro encarece, depois orienta. Primeiro empobrece, depois consola. A propina não precisa ter nome, basta ter política pública.
O mercado editorial de culinária e bem-estar não é ingênuo nessa equação. Listas de receitas práticas existem porque o algoritmo as premia, o algoritmo as premia porque geram cliques, os cliques geram receita publicitária, e a receita publicitária vem de quem vende proteína em pó, tempero industrializado, panela de marca certificada pelo instituto fulano de tal. A sopa de lentilha que sua mãe fazia com alho e sal virou conteúdo patrocinado. O conhecimento que era livre virou produto. E o produto precisa de licença para circular, de selo para ser confiável, de especialista para ser validado. Você precisou de alguém para te dizer que caldo de osso tem colágeno. Sua avó não precisou.
Não há nada de errado com receitas de sopa. Há algo profundamente sintomático numa sociedade que precisa de artigo jornalístico para redescobrir o que civilizações inteiras comeram durante séculos para sobreviver. A pergunta que o texto de origem jamais faz é a única que importa: por que o brasileiro médio não consegue mais preparar uma refeição nutritiva com o que ganha? A resposta está na carga tributária sobre alimentos, no custo do gás de cozinha, na inflação que corrói o poder de compra do trabalhador, nos cartórios profissionais que encarecem cada elo da cadeia de produção. A sopa rica em proteínas existe. O problema é que o Estado se certificou de que ela ficasse cara o suficiente para virar pauta.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.