A frase é dura, mas tem o mérito raro da exatidão clínica: as facções brasileiras viraram multinacionais sob o atual governo, e os Estados Unidos responderam com tarifa. Repare na elegância involuntária do diagnóstico. Não se trata de moralismo, trata de contabilidade. Quando uma quadrilha cresce a ponto de operar em três continentes, lavar dinheiro em corretoras de criptomoeda e exportar cocaína por contêiner refrigerado, ela deixou de ser caso de polícia e virou ator geopolítico. E ator geopolítico, queira ou não Brasília, recebe resposta geopolítica. Washington não está irritada com o samba, está irritada com o porto de Santos.
O ponto que escapa ao noticiário domesticado é a trilha do dinheiro, sempre ela. Tarifa não é castigo abstrato, é confisco organizado contra o produtor de soja do Mato Grosso, contra o frigorífico goiano, contra o pequeno exportador de calçados de Franca. Esses sujeitos nunca viram um pacote de droga na vida, nunca financiaram milícia, nunca lavaram um centavo. Pagam, no entanto, a fatura da omissão deliberada de um governo que confundiu pacificação com cumplicidade e diálogo com licença. O cidadão produtivo sempre acaba comprando o ingresso da festa que não foi convidado a frequentar. É a velha regra: socializam-se os prejuízos do bandido, privatizam-se os lucros do esquema.
Há quem dirá, com aquele ar professoral de quem leu três páginas de revista semanal, que tarifa é coisa de protecionista bronco e que a verdadeira solução é negociar. Negociar com que autoridade, exatamente? Quem chega à mesa de costas para o próprio quintal infestado só consegue duas coisas: humilhação pública e contrapartida vexatória. A República de Veneza, no auge do seu poder mercantil, sabia que comércio internacional exige Estado mínimo dentro e Estado vigilante na fronteira. Aqui inverteu-se a equação: Estado obeso para regular padaria e Estado eunuco para conter facção. O resultado é matematicamente previsível e está estampado na alíquota americana.
Observe a delicadeza do silogismo que ninguém quer pronunciar em voz alta. Premissa primeira: governos que protegem ou toleram organizações criminosas transnacionais geram externalidades hostis a parceiros comerciais. Premissa segunda: o atual arranjo brasileiro tolera, quando não festeja, a expansão dessas organizações sob o eufemismo de reintegração social. Conclusão inevitável: o Brasil paga, paga caro, paga em dólar, paga com emprego perdido em Caxias do Sul e em Petrolina. Não há discurso emocionado em tribuna que altere o resultado da operação aritmética. As coisas são o que são, independentemente do release oficial.
O mais delicioso da farsa é que os mesmos quadros que passaram décadas pregando soberania nacional contra o imperialismo americano agora descobrem, espantados, que soberania de verdade custa caro e exige decisões impopulares. Soberania não é fantasia de festa junina, é capacidade efetiva de impor ordem dentro do próprio território. Quem terceiriza a segurança pública para o crime organizado em troca de paz eleitoral nas comunidades não tem soberania, tem aluguel vencido. E aluguel vencido, mais cedo ou mais tarde, vira despejo. O despejo, neste caso, chega em formato de planilha alfandegária assinada em Washington.
Resta a pergunta de sempre, aquela que serve de bússola quando a poeira do debate baixa: quem paga e quem recebe? Pagam o trabalhador, o exportador, o consumidor que verá o preço dos importados subir, o desempregado que não será contratado pela fábrica que perdeu mercado. Recebem o traficante consolidado como empresário transnacional, o burocrata que faz vista grossa em troca de tranquilidade administrativa, o partido que transforma cada penitenciária em comitê eleitoral. A tarifa americana é só o recibo. A fatura, essa, vem sendo emitida há anos pela cumplicidade silenciosa de quem deveria governar e prefere encenar.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.