A notícia chega embrulhada em jargão diplomático, como sempre chega quando o objetivo é fazer o contribuinte cochilar enquanto a carteira é esvaziada. Quatro navios chineses cruzaram pela primeira vez a costa leste de Taiwan, Taipei devolveu o cumprimento com cinco, e o gatilho oficial foi o anúncio de conversas sobre fronteira marítima entre Japão e Filipinas. Está tudo lá, escrito com a frieza de quem comenta a previsão do tempo, e ninguém pergunta a coisa óbvia que precisaria ser perguntada antes de qualquer manchete: quem está pagando esse passeio de iate militar e quem está embolsando a fatura.
Há um padrão antiquíssimo nessa coreografia, e ele se repete desde que galés fenícias intimidavam vilarejos do Mediterrâneo. O império manda a frota, o vizinho manda a sua, alguém solta um comunicado solene, e os jornais oficiais transformam o ritual em épica nacional. Funciona porque cumpre uma função política que nenhum eleitor jamais aprovaria explicitamente, isto é, manter a indústria bélica abastecida, justificar orçamentos sigilosos e dar ao governante de plantão a aura de estadista que ele jamais teria caso fosse julgado pelos próprios atos administrativos. Olhe para o que o sujeito faz com o seu salário, não para o que ele declama no púlpito; a régua serve para presidente, primeiro ministro e secretário do partido único, sem distinção.
Siga o dinheiro e o nevoeiro se dissipa. Cada vez que uma fragata cruza um estreito, alguém precisa abastecê la com combustível subsidiado pelo contribuinte, manter o casco fabricado por um estaleiro contratado em regime de exclusividade, equipá la com mísseis comprados por valores que jamais sobreviveriam a uma concorrência honesta, e tripulá la com militares cujos planos de carreira dependem precisamente de que a tensão jamais esfrie. Há comissões de defesa, há fornecedores cativos, há lobistas em Washington, em Tóquio, em Pequim e em Brasília, todos com o mesmo interesse comum, qual seja, vender a próxima escalada como inevitável. O cidadão que aperta o cinto na compra do mês é o sócio involuntário de um cartel global que prospera quando os mapas voltam a parecer perigosos.
A premissa de que governos se armam para nos proteger esbarra numa premissa menor incômoda, isto é, governos foram historicamente a maior causa de morte violenta da espécie humana. Da conclusão lógica fugimos por décadas com slogans patrióticos, mas o silogismo permanece teimoso como um credor batendo à porta. Se o monopólio da força é o instrumento que mais produziu cadáveres no século passado, qualquer expansão desse monopólio sob o pretexto de segurança merece, no mínimo, a desconfiança que dedicamos ao vendedor de seguro que aparece logo após o incêndio. Acrescente que Pequim controla a moeda dos seus súditos, que Taipei depende militarmente de um padrinho longínquo, e que Tóquio e Manila assinam pactos cujos termos jamais serão lidos pelos pescadores cujas rotas serão restringidas, e a fotografia fica completa.
O detalhe saboroso, aquele que os comentaristas de salão jamais sublinharão, é que toda essa movimentação acontece num momento em que as três economias envolvidas convivem com inflação persistente, dívida pública em níveis de tempo de guerra e populações envelhecidas que precisariam, com urgência, de capital produtivo em vez de blindagem flutuante. Os bancos centrais imprimem, os tesouros emitem, os contribuintes engolem, e a frota desfila. É a velha alquimia de transformar poupança alheia em prestígio próprio, dourada por trás do verniz da soberania nacional. Quem perde poder de compra é o trabalhador honesto; quem ganha contrato é o conglomerado que financia campanha; quem ganha manchete é o burocrata fardado que será citado em livros didáticos comprados, claro, com mais imposto.
Quando todos os jornais sérios concordam que a manobra é grave, que a resposta é proporcional e que a comunidade internacional precisa agir, vale acender o farol da desconfiança no nível máximo. Consenso unânime é, quase sempre, o sintoma de que a propaganda funcionou. Reduzido ao osso, o episódio é mais um capítulo do mesmo enredo cansado, qual seja, soberanos armados encenando rivalidade para extrair, dos próprios povos, recursos que jamais seriam entregues por consentimento esclarecido. O rei está nu, navega de canhão à mostra, e exige aplausos pela coragem de molhar os pés. Sorria, pague a conta, e finja que entendeu o motivo.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.