Cento e trinta e dois bilhões de dólares. Escreva o número por extenso e ele fica ainda mais obsceno. É o pacote de remuneração que o homem-foguete embolsou, equivalente a dois milhões e meio de anos de trabalho de um operário típico da própria Tesla, aquele sujeito que aperta parafuso na linha de montagem em Fremont e que, se quisesse igualar o patrão honestamente, precisaria ter começado a trabalhar no Paleolítico Superior e continuar batendo ponto até o Sol virar uma anã branca. Diante de tamanha desproporção, as duas reações automáticas do espectador médio são igualmente patéticas: ou se ajoelha em adoração ao gênio empreendedor, ou levanta o punho cerrado pedindo a guilhotina dos ricos. As duas tribos, convenientemente, evitam a única pergunta civilizada que sobra: quem pagou essa conta, e por quê.

Comecemos pelo óbvio que ninguém quer ver. A Tesla não é, nunca foi, um empreendimento que prosperou no mercado livre como contam as fábulas para investidores ingênuos. A montadora elétrica nasceu, cresceu e engordou amamentada por créditos fiscais federais, subsídios estaduais, isenções municipais, empréstimos a juros camaradas do Departamento de Energia e, sobretudo, pela venda de créditos regulatórios de carbono que outras montadoras são obrigadas, por decreto, a comprar dela. Em vários trimestres, foi essa renda parasitária, arrancada à força de concorrentes via canetada burocrática, que segurou o lucro contábil. A SpaceX, por sua vez, vive dos contratos da NASA e do Pentágono, isto é, do contribuinte americano transformado em cliente cativo. Quando se soma a Starlink subsidiada, os incentivos para baterias, as gigafactories construídas com renúncia fiscal bilionária, descobre-se que o capitalista mais celebrado da era contemporânea é também, e principalmente, um virtuoso da extração de renda do erário.

O silogismo é cruel na sua simplicidade. Se a riqueza de uma companhia é em parte fabricada por privilégios estatais, e se o pacote do executivo é atrelado ao valor de mercado dessa companhia, então o pacote do executivo é, em parte, transferência forçada de patrimônio do contribuinte para o bolso do executivo. Não há rodeio retórico que escape dessa conclusão. O bilionário não roubou ninguém na calada da noite, claro, porque não precisou: bastou que o Congresso, sob pressão de lobistas competentíssimos, escrevesse na lei que a virtude verde merece prêmio em dinheiro vivo. O assalto é legal, anunciado em ato oficial, com fotógrafo presente e caneta de ouro. É o melhor tipo de assalto, aquele que vem acompanhado de aplauso de pé do jornalismo bem-pensante.

Note como o truque funciona. A narrativa oficial vende a história como triunfo da meritocracia, do risco assumido, da visão futurista do empreendedor solitário que dorme no chão da fábrica. Há até verdade nesse retrato, ninguém nega o talento operacional do sujeito. Só que, ao mesmo tempo em que se canta o hino do livre mercado, embolsa-se com a outra mão a graxa fiscal que distorce a concorrência, esmaga as montadoras que ousam fabricar carros que o consumidor de fato prefere comprar com o próprio dinheiro, e empurra goela abaixo da rede elétrica subsídios cruzados que o motorista de Honda Civic paga sem saber. Privatizam-se os lucros para o acionista controlador, socializam-se os custos para o pagador de impostos. Velho truque, vestido com roupa nova de algoritmo e foguete reutilizável.

A esquerda histérica perde a oportunidade de acertar no alvo porque está obcecada em redistribuir, e não em desmontar. Quer taxar a fortuna depois de formada, quando deveria, antes, abolir os mecanismos que a formaram à custa alheia. Acabe com o crédito regulatório de carbono, suspenda a isenção fiscal seletiva, encerre o contrato preferencial com o Pentágono, abra a competição espacial, deixe que a Tesla compita com a BYD chinesa sem cinto de segurança fabricado em Washington, e veja em quanto tempo a remuneração estratosférica do chefe vira pó. Não vira porque o sujeito é incompetente, vira porque o castelo, sem o subsídio, não tinha tantos andares. A direita boba, por sua vez, beija o anel achando que está defendendo o capitalismo, quando defende exatamente o que o sufoca: o casamento incestuoso entre balcão de empresa e gabinete de ministro, que noutros tempos se chamava mercantilismo e se chamava, sem cerimônia, corrupção de Estado.

Resta então a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga? Você, todo dia, na nota fiscal do combustível que financia o crédito do elétrico, no imposto federal que banca o contrato da NASA, na conta de luz que sustenta a rede tortuosa dos incentivos verdes. Quem recebe? O executivo, os fundos que carregam suas ações, os lobistas que escrevem os parágrafos da lei, os senadores que recebem doação de campanha e devolvem em forma de subsídio. Entre o pagador e o recebedor há uma fila de intermediários muito bem vestidos, todos jurando que aquilo ali é mercado, é mérito, é futuro. Não é. É a mesma velha fazenda do rei, agora com cobertura de aço inoxidável e logotipo minimalista. A diferença é que, no tempo das monarquias, ao menos se sabia quem era o rei e quem era o súdito. Hoje o súdito segue o rei no Twitter e ainda paga assinatura azul para isso.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.