Eis a manchete que ninguém pediu mas todo mundo recebe: trinta nomes femininos chiques para batizar a prole em 2026, servidos numa bandeja editorial como se a redação tivesse acabado de descobrir a cura do tédio. A pergunta que ninguém faz, e que portanto cabe aqui, é simples e indecente: quem decidiu o que é chique? Em que comitê secreto da elegância nacional foi votado que Heloísa volta, Aurora sobe e Maitê estaciona no pódio? Porque alguém decidiu, e esse alguém não foi a mãe insone de madrugada folheando dicionário de santos. Foi a engrenagem que vive de fabricar consenso onde antes havia escolha íntima.

O nome da criança era, até anteontem, decisão privada, fruto de avó, de promessa, de um livro lido na adolescência, de um santo no calendário. Hoje é categoria de mercado. Vire a página e perceba: portais publicam essas listas em janeiro, fevereiro, março, abril, repetem em outubro, recauchutam em dezembro, porque cada clique vale centavo, e centavo vezes milhão de gestante ansiosa vira faturamento robusto de fim de trimestre. A maternidade foi convertida em funil de tráfego. O útero virou métrica. E a mãe, coitada, sai do obstetra achando que escolheu sozinha quando na verdade foi pastoreada por algoritmo que sabe exatamente em que semana de gestação ela está mais vulnerável à sugestão.

Repare na palavra mágica: chique. Não elegante, não bonito, não tradicional. Chique. Vocábulo que carrega dentro de si uma hierarquia social inteira, um aceno de classe, uma promessa de ascensão simbólica. Como na Roma decadente, em que os libertos enriquecidos imitavam os nomes das gentes patrícias para fingir linhagem que não tinham, hoje se vende a famílias de classe média o sonho de que batizar a filha de Cecília em vez de Jéssica é comprar passaporte para outro andar do prédio social. É a velha lógica do veblen redivivo: consumo conspícuo aplicado ao registro civil. Você não dá um nome à sua filha, você compra um signo de distinção, e a fatura vem depois, em forma de expectativa que a menina vai carregar a vida inteira.

E quem ganha com isso? Siga o rastro. Ganham os portais que monetizam a angústia da gestante com anúncios de fralda, de berço, de carrinho importado, de seguro educacional, de plano de saúde premium, todos diligentemente plantados ao redor da lista de nomes que prometem berço de ouro simbólico. Ganham as agências que vendem essas pautas como conteúdo SEO, palavra fofa que designa o ofício de escrever para máquina ler antes do humano. Ganha o ecossistema inteiro da indústria materno infantil, que faturou bilhões no ano passado vendendo ansiedade embalada em rosa pastel. A criança, essa, ainda nem nasceu, e já entrou na planilha de alguém como leitora cativa de newsletter.

Há ainda o detalhe filosófico que merece bisturi. A coisa é o que é, dizia a gente antiga que ainda pensava antes de digitar: um nome chique é o que a moda decretou chique nesta semana, e nada mais. Daqui a dez anos, Aurora será tão datada quanto Jaqueline ficou, e a menina batizada na crista da onda vai se apresentar na faculdade ouvindo o mesmo suspirinho condescendente que hoje recai sobre quem se chama Sheila. A elegância verdadeira nunca apareceu em lista de portal, porque elegância de verdade não precisa de validação editorial. O que aparece em ranking é sempre, por definição, aquilo que deixou de ser exclusivo no instante em que virou ranking.

Fica então o conselho que nenhuma reportagem patrocinada vai dar: escolha o nome da sua filha pelo motivo mais antigo do mundo, porque significa algo para você, porque honra alguém, porque soa bem no seu ouvido em particular. O resto é teatro, e teatro pago. A liberdade começa nas pequenas decisões que recusam a tutela do gosto alheio, e batizar uma criança é uma dessas decisões fundadoras. Quem terceiriza essa escolha para um portal já entregou, sem perceber, o primeiro pedaço da soberania doméstica. E quando se entrega o primeiro, os outros vêm sozinhos.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.