A notícia veio assim, sem vergonha: uma esteira de massagem elétrica, com desconto de 38% e avaliação de 4.7 estrelas, apresentada como se fosse informação jornalística relevante para o cidadão brasileiro. Nenhum editorial, nenhuma aspas, nenhum pudor. O leitor abre o portal esperando notícia e recebe catálogo de loja virtual vestido com as roupas do jornalismo. Isso não é detalhe menor. É sintoma de algo muito mais sério do que um link de afiliado mal disfarçado.
O argumento implícito da peça é revelador na sua brutalidade silenciosa: você chega em casa destruído, as costas em frangalhos, as pernas pesadas de trânsito e de humilhação profissional, e a solução que o veículo oferece é um aparelho elétrico que vibra enquanto você deita no sofá. A lógica, aqui, funciona como aquela dos antigos impérios que sabiam exatamente o que fazer com populações exaustas e ressentidas: dar-lhes entretenimento, conforto barato, alívio imediato. O circo moderno não tem leões nem gladiadores. Tem frete grátis e parcelamento em doze vezes sem juros.
Mas sigamos a trilha que importa. Por que o trabalhador brasileiro chega em casa com as costas quebradas? Não é mistério nem acidente. É a aritmética simples de uma jornada que começa às seis da manhã porque o transporte público foi destruído décadas atrás por gestões que preferiram asfaltar contratos do que calçadas. É o peso de uma carga tributária que devora entre 33% e 40% de tudo que o cidadão produz, deixando-o sem margem para pagar por um massagista de verdade, por um plano de saúde decente, por qualquer serviço que alivie concretamente o esgotamento físico. O Estado extrai, a mídia vende o analgésico, e ninguém pergunta quem causou a dor.
Existe uma precisão quase cirúrgica nesse modelo. O veículo de comunicação vive da atenção do leitor. O leitor chega exausto, vulnerável, à procura de algum alívio ou distração. O portal, então, não lhe oferece análise do que o destruiu, porque essa análise não tem link de afiliado, não gera clique monetizável, não converte em comissão. Oferece, em vez disso, a esteira mágica, o produto milagroso, a solução privada para um problema que tem causa pública e coletiva. É um negócio perfeito: o Estado cria o problema, a mídia vende a solução, e o trabalhador paga duas vezes, primeiro no imposto, depois no boleto.
O que chama atenção não é a existência do produto, que pode até ser bom, nem a do comércio eletrônico, que é legítimo. O que chama atenção é a desfaçatez editorial de apresentar publicidade disfarçada como jornalismo, em um país onde a imprensa já perdeu boa parte da credibilidade que um dia teve. Quando um veículo trata seu leitor como consumidor passivo a ser direcionado ao carrinho de compras, está confessando, sem perceber, que não tem mais nada de substantivo a dizer. A esteira de 4.7 estrelas é, nesse sentido, o espelho fiel de uma imprensa que também derrete no sofá, com o controle remoto na mão, enquanto o país queima.
O trabalhador brasileiro merece jornalismo que explique por que ele chega destruído em casa todos os dias. Merece análise honesta das políticas de transporte, da tributação absurda sobre medicamentos e planos de saúde, da regulamentação que encarece tudo o que deveria ser acessível. O que ele recebe, em troca, é um link para uma esteira elétrica com desconto de 38% e a sugestão gentil de que sua dor muscular é um problema de consumo, não de cidadania. Enquanto essa substituição passar despercebida, o negócio continuará perfeito para todos os envolvidos, exceto para o único que sustenta a conta inteira.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.