Doze bilhões e duzentos milhões de reais. Esse foi o tamanho do bolo que as casas de apostas online devoraram entre janeiro e abril deste ano, o dobro do mesmo período de 2025, segundo a Receita Federal. O número vem embrulhado em comunicados oficiais que falam em "mercado regulado", "ambiente saudável" e outras pérolas do vocabulário burocrático que servem para uma coisa só: maquiar a operação. Porque o que está em curso não é regulação, é sociedade. O governo não vigia o cassino, ele é sócio oculto da banca, e como todo sócio sensato, prefere que o negócio cresça.

Vale lembrar como chegamos aqui. Durante anos, jogo era contravenção, perseguido por um Estado paternalista que jurava proteger o cidadão de si mesmo. Bastou cheirar a possibilidade de tributar a desgraça para que a moral pública sofresse uma revisão milagrosa. O que era vício virou "entretenimento adulto", o que era exploração virou "inclusão econômica", e o que era proibido virou outorga. A hipocrisia tem CNPJ, alvará e alíquota. E o sujeito que ontem prendia banqueiro de bicho hoje recebe lobista de bet em gabinete climatizado, com cafezinho e fotografia oficial.

Siga o dinheiro e a coreografia fica clara. O apostador, em geral o brasileiro de renda baixa que mira no celular como quem mira na loteria da salvação, transfere seu salário para a plataforma. A plataforma repassa uma fatia para o Tesouro na forma de tributo, outra fatia para os artistas globais que estampam a propaganda, outra para os clubes de futebol que viraram outdoors ambulantes, e o restante embolsa. O Estado, que se vende como guardião do bem comum, na prática atua como concessionário de um pedágio sobre o desespero. Cada ficha perdida na roleta digital paga uma parte da máquina pública que, em tese, deveria existir para evitar exatamente esse tipo de sangria.

O argumento padrão dos defensores do arranjo é o de sempre, aquele que serve para justificar qualquer coisa: se não fosse regulado, seria pior, estaria no submundo, financiando crime organizado. É o velho truque retórico de oferecer duas opções ruins e fingir que a terceira não existe. A terceira existe e se chama liberdade com responsabilidade. Adulto que decide queimar o salário no cassino faz isso por sua conta, sem que o Estado precise lucrar com a tragédia para depois posar de assistente social. Não dá para faturar bilhões em imposto sobre apostas e simultaneamente lamentar o endividamento das famílias, a menos que se tenha o estômago particularmente forte da classe política brasileira.

O mais ofensivo é o teatro das restrições. Toda vez que o faturamento estoura recorde, anuncia-se uma nova regrinha cosmética, alguma limitação publicitária, um aviso em letrinha miúda, a proibição de algum termo. É a banca pedindo desculpas pela carteirada enquanto enche o caixa. Restrição séria reduziria a arrecadação, e arrecadação é a única coisa que move esse mecanismo. Toda política pública beneficia alguém específico e prejudica outro alguém específico; aqui, o beneficiário tem CNPJ estrangeiro e contrato de patrocínio, e o prejudicado tem nome, endereço e contracheque que não fecha o mês.

O resultado prático é uma sociedade em que o trabalhador entrega o salário para três casas de apostas antes da sexta-feira, o governo comemora a arrecadação no boletim do Tesouro, e os mesmos parlamentares que aprovaram a farra discursam sobre proteção ao consumidor em comissões especiais criadas para não decidir nada. É o ciclo perfeito do parasitismo institucional: cria-se o problema, tributa-se o problema, finge-se combater o problema, e usa-se o dinheiro do problema para financiar a estrutura que vive do problema. Quem paga, no fim, é sempre o mesmo. Quem recebe, também.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.