A notícia chega vestida de terno e gravata, com aquele ar técnico que costuma anestesiar o leitor antes que ele perceba o que está sendo subtraído do seu bolso. A Caixa Econômica Federal, banco estatal que vive do dinheiro alheio, promete realizar entre quinze e vinte leilões de Parcerias Público-Privadas na B3 ao longo de 2026, encerrando 2025 com cento e trinta contratos de estruturação que somam mais de quarenta bilhões de reais em investimentos estimados. Traduzindo do dialeto burocrático para o português dos mortais, a coisa é simples: o Estado vai usar a bolsa de valores como vitrine para vender a empreiteiros e fundos amigos pedaços de obras que ele mesmo, com seu monopólio da força e do tributo, garante que serão pagas pelo cidadão por décadas a fio.
O encanto da palavra parceria merece um exame mais cuidadoso, pois ali mora o truque. Numa parceria genuína, dois sujeitos arriscam capital próprio, dividem perdas, partilham ganhos e respondem pelos próprios erros. Nessa parceria à brasileira, contudo, o ente público entra com o que não é dele, o dinheiro do contribuinte sob forma de contraprestação garantida, e o privado entra com o que é dele apenas no balanço, financiado quase sempre pelo BNDES, pela própria Caixa ou por fundos de pensão estatais. O risco, esse incômodo que justifica o lucro num mercado decente, é cuidadosamente removido do contrato e despejado nas costas da plateia, que assiste tudo da geral sem direito sequer a vaia.
Quem ganha com a brincadeira é fácil de mapear se a pessoa tiver a paciência de seguir o rastro. Ganham os escritórios de advocacia especializados em estruturar editais sob medida, ganham os bancos de investimento que cobram fortunas para fatiar e revender os papéis, ganham os consultores que circulam entre o setor público e o privado com a desenvoltura de quem trocou de paletó, mas não de mesa. Ganham, sobretudo, os grupos econômicos com pedigree suficiente para chegar à fase final dos certames, geralmente os mesmos quatro ou cinco nomes que aparecem em toda obra grande deste país desde que o cruzeiro ainda valia alguma coisa. Eis a verdadeira mão invisível desse mercado: a mão que aperta a outra debaixo da mesa.
Há ainda o detalhe quase poético de levar isso à bolsa, ambiente que historicamente serviu para que empresas captassem poupança voluntária de cidadãos dispostos a apostar no risco alheio. Agora a bolsa vira praça pública estatal, mercadinho onde o governo expõe seus projetos como peixeiro exibe pescado, com a diferença de que o peixeiro precisa convencer o freguês, enquanto o governo já garantiu antes que o freguês pagaria, querendo ou não, através do imposto, da tarifa, da inflação ou das três coisas combinadas. Chamar isso de mercado de capitais é o mesmo que chamar de duelo a execução sumária em que apenas um dos lados tem arma.
A lógica do arranjo é implacável quando desmontada peça por peça. Se o projeto fosse genuinamente rentável, dispensaria a tutela estatal, pois capital privado fareja oportunidade melhor que cachorro fareja osso. Se não é rentável por si, então só se viabiliza porque alguém, em algum lugar, será obrigado a cobrir a diferença, e esse alguém nunca é o ministro sorridente no palanque nem o presidente da Caixa posando para a foto institucional. Cada PPP anunciada com pompa cívica é uma confissão silenciosa de que o cálculo econômico foi substituído pela engenharia política, e que o critério de alocação de recursos deixou de ser a preferência demonstrada do consumidor para virar o capricho deliberado do burocrata.
No fim do espetáculo, sobra a paisagem de sempre, com aeroportos inaugurados em cerimônia transmitida ao vivo, rodovias com pedágio reajustado acima da inflação, escolas terceirizadas para gestoras que descobrem o segredo eterno de cobrar caro e entregar pouco, e uma plateia confusa que jura ter ganhado alguma coisa porque viu fita sendo cortada na televisão. Vinte leilões em 2026, quarenta bilhões em jogo, e a pergunta que nenhum analista bem comportado faz em horário nobre continua suspensa no ar como fumaça de charuto caro: se tudo isso é tão maravilhoso para o cidadão, por que precisa ser empurrado goela abaixo dele com a força da lei e o sigilo do contrato?
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.