Existe um pequeno teatro silencioso nos cofres de Genebra, Hong Kong e Nova York onde cinco gemas específicas circulam como se fossem títulos da dívida soberana de uma nação imaginária e bem mais sólida que muita república por aí. Não estamos falando de joalheria de shopping, daquele anelzinho com zircônia que o vendedor jura ser eterno. Estamos falando de pedras cujo preço por quilate ultrapassa, com folga, o valor de um apartamento inteiro na zona sul de qualquer capital, e que mudam de dono em leilões discretos, longe das câmeras, longe da Receita Federal, longe sobretudo do moralista de plantão que ainda acha que riqueza concentrada é uma ofensa cósmica.
O diamante azul, o rubi birmanês de sangue de pombo, a esmeralda colombiana de Muzo, a painita e a taaffeíta formam o panteão dos minerais que riem do PIB de países inteiros. Um único diamante azul de quinze quilates pode passar dos cinquenta milhões de dólares no martelo, e o detalhe gostoso é que ninguém pergunta de onde veio o dinheiro do comprador, porque ali, naquele recinto perfumado, a presunção de inocência ainda existe, coisa que o pequeno empresário brasileiro perdeu por volta de 1988. Quem paga é alguém que já pagou imposto a vida toda e descobriu que a única forma de blindar patrimônio contra a sanha confiscatória é converter dinheiro em algo que cabe no bolso e atravessa fronteiras sem pedir autorização ao Banco Central.
É instrutivo lembrar que toda corte decadente, do Egito faraônico aos últimos suspiros de Bizâncio, passando pela França de antes da guilhotina, sempre acumulou pedras preciosas pelo mesmo motivo prático: ouro pesa, terra não se carrega, palácio não cabe na mala, mas um rubi de cinco quilates passa pela alfândega escondido na bainha de um casaco. A nobreza russa que conseguiu sobreviver a 1917 foi exatamente aquela que costurou diamantes nos forros antes de pegar o trem para Paris. Os que confiaram nos rublos do czar viraram garçons. A história é teimosa nesse ponto, e os ricos contemporâneos, que leem mais do que aparentam, simplesmente atualizaram o método.
O que faz uma pedra valer cinquenta milhões não é o brilho, é a escassez absoluta combinada com a impossibilidade de o Estado fabricar mais. A painita, por décadas, teve menos exemplares conhecidos do que ministros do Supremo, e isso explica tudo. Diferentemente do papel verde que sai da impressora americana ou do real que o Tesouro multiplica por decreto sempre que precisa pagar uma conta política, a pedra preciosa não obedece a comitê monetário, não cede a pressão de presidente, não se dilui em pacote de estímulo. Ela é o que é, está onde está, e quem quiser que pague o preço. Há uma certa beleza filosófica em um objeto que humilha a prepotência dos planejadores centrais simplesmente existindo em quantidade fixa.
O moralista vai torcer o nariz e dizer que cinquenta milhões de dólares numa pedra dariam para construir mil escolas, alimentar tantas crianças, vacinar tantas regiões, o discurso de sempre, aquele que já ouvimos repetido por todo burocrata que precisa justificar o próprio salário. Curioso é notar que nenhum desses indignados profissionais propõe que se confisque o jatinho do artista global ou o iate do cantor engajado, só os diamantes do empresário anônimo. A inveja, quando se fantasia de virtude pública, costuma escolher muito bem suas vítimas, e raramente escolhe as próprias. O sujeito que troca cinquenta milhões por uma pedra não tirou um centavo de ninguém; comprou de quem queria vender, no preço que ambos aceitaram, sem coação, sem subsídio, sem favor regulatório. É uma das poucas transações realmente limpas que ainda restam no planeta.
No fim, essas cinco pedrinhas funcionam como um espelho incômodo. Elas mostram, com a frieza de quem não precisa pedir voto, que existe um pedaço da riqueza humana que escapou da engrenagem, que sobreviveu ao imposto inflacionário, ao confisco dissimulado, à regulação onipresente, e que continua circulando nas mãos de quem entendeu cedo demais que confiar em moeda fiduciária é o mesmo que guardar gelo no bolso de calça em pleno janeiro carioca. Quem paga é o gosto refinado de poucos, quem recebe é o minerador que arriscou a vida em túnel birmanês e o intermediário esperto que soube esperar a hora. E o resto de nós, mortais, fica aqui admirando a fotografia, lembrando que beleza, raridade e liberdade quase sempre andam de mãos dadas, e quase nunca passam pelo carimbo oficial.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.