Circula pela imprensa de tecnologia mais um daqueles comparativos aparentemente inocentes entre o Waze e o aplicativo de mapas que já vem instalado no iPhone. A tese é que o app nativo oferece cinco recursos ausentes no concorrente israelense comprado pelo Google em 2013, entre eles integração com transporte público, exibição refinada de pontos de interesse, navegação para pedestres, ciclistas e usuários de metrô, além de uma estética que, convenhamos, é caprichada. Tudo verdade. Mas o comparativo esconde a pergunta que realmente importa, aquela que ninguém quer fazer em voz alta.

A pergunta é: por que estamos comparando um aplicativo baixado com um aplicativo imposto? O app nativo do celular da maçã não venceu porque é melhor, venceu porque está lá, ocupando o ícone privilegiado, respondendo aos comandos de voz do assistente, integrado ao relógio de pulso, ao carro conectado, ao calendário e ao aplicativo de mensagens. É a velha estratégia da praça de mercado medieval, quem controla o portão da cidade controla o comércio. O Waze precisa ser procurado, instalado, configurado, autorizado. O outro simplesmente existe, como o ar da sala.

Vale lembrar que o Waze nasceu como um projeto genuinamente comunitário, uma daquelas ideias bonitas em que os próprios motoristas alimentavam o sistema com informações de trânsito em tempo real, radares, acidentes, blitze. Uma multidão anônima construindo, gratuitamente, o mapa mais confiável das ruas do mundo real. Foi comprado por mais de um bilhão de dólares pela mesma empresa que hoje decide quais vídeos você pode ver no YouTube e quais resultados aparecem na busca. Desde então, o app estagnou. Recebeu ajustes cosméticos, algumas parcerias com anunciantes, mas nenhuma reinvenção. Comprou-se para neutralizar, não para florescer. É o velho jogo da aquisição preventiva, tática que os monopólios digitais aprenderam a executar com precisão cirúrgica.

Enquanto isso, o aplicativo da maçã evoluiu no ritmo lento e obstinado de quem tem a plataforma na mão. Ganhou informações de trânsito, rotas para transporte público, visão detalhada de cidades, integração com carros elétricos e seus pontos de recarga, e aquele nível de acabamento visual que a fabricante californiana costuma tratar como religião. Não porque seja tecnicamente superior em cada função isolada, mas porque tem o luxo de ser padrão. Software padrão é software vencedor, ainda que seja pior. Foi assim com o navegador da Microsoft nos anos 1990, foi assim com o buscador do Google embutido em todo Android, e é assim agora com o app de mapas nativo do iPhone.

Há também o detalhe pouco discutido de que todo aplicativo de navegação é, por natureza, um dispositivo de vigilância voluntariamente instalado no bolso. O usuário informa, minuto a minuto, onde está, para onde vai, com que frequência, em que velocidade, com quem cruza no caminho. Quem detém esse dado detém um mapa vivo da vida privada de milhões. O comparativo de recursos entre um app e outro é a distração perfeita, um debate sobre o design dos ícones enquanto a verdadeira mercadoria, a sua localização em tempo real, viaja para servidores em jurisdições distantes. O produto, você já sabe, é você.

Então fique com o que preferir, o app nativo bonito e integrado ou o app comprado e domesticado. A conveniência é real, os recursos são reais, o comparativo é honesto no que se propõe. Só não confunda a escolha entre dois cardápios com liberdade de escolha, porque o restaurante é o mesmo, o dono é praticamente o mesmo, e o cliente, no fim das contas, sempre paga com a mesma moeda invisível.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.