Existe uma tradição antiga no comércio de ludibriar o freguês com aquilo que ele consegue contar nos dedos. O vendedor de tapetes persas gabava os nós por centímetro quadrado, o negociante de tecidos vangloriava a gramatura, e o mercador de especiarias jurava que seu açafrão pesava mais que o do vizinho. Hoje, na era dos smartphones, o truque tem nome pomposo e sufixo grego: megapixel. Duzentos, dizem eles, é quatro vezes melhor que cinquenta, e o comprador incauto assina o carnê convicto de que levou para casa uma câmera profissional pelo preço de um salário mínimo e meio.
O problema é que fotografia jamais foi aritmética. Quem já entrou num estúdio de verdade sabe que a imagem nasce da luz, e a luz precisa de espaço para pousar. O sensor é uma janela, e de nada adianta subdividir essa janela em milhões de quadradinhos microscópicos se cada um deles captura apenas um sopro de fóton. É como tentar encher duzentos copinhos de cafezinho com o mesmo bule que abastecia cinquenta xícaras generosas. No fim, cada copinho recebe um gole aguado, e o resultado é aquela foto noturna cheia de granulado que a propaganda chama poeticamente de textura cinematográfica.
O que faz uma câmera boa não cabe na embalagem porque exige explicação, e explicação cansa o consumidor apressado. Tamanho físico do sensor, abertura da lente, qualidade do vidro, algoritmo de processamento, estabilização óptica, tudo isso importa infinitamente mais que o número inflado que aparece em letras garrafais no anúncio. Um sensor grande de dez megapixels bem cuidados humilha, na noite escura, qualquer monstrengo de duzentos megapixels amontoados num chip do tamanho da unha do dedo mindinho. Mas quem vai gastar trinta segundos do comercial explicando abertura focal quando pode simplesmente estampar um número enorme na tela?
Há aqui uma metáfora que transcende a fotografia. A indústria descobriu, faz tempo, que o público treinado pela escola pública comparativa e pelo marketing digital raciocina em números absolutos, não em qualidade relativa. Vende-se processador pelo gigahertz, memória pelo gigabyte, tela pela polegada, câmera pelo megapixel, e o cidadão médio compara planilhas sem jamais compreender que essas grandezas isoladas são tão úteis quanto avaliar um automóvel pela cor da tinta. Reduziram a experiência humana a uma tabela de Excel, e o consumidor, docilmente, aprendeu a comprar Excel.
Existe ainda o fenômeno curioso do pixel binning, aquela mágica pela qual o aparelho de duzentos megapixels tira, na prática, fotos de doze megapixels combinando os vizinhos para simular um sensor maior. Ou seja, o próprio fabricante admite silenciosamente que aqueles duzentos megapixels são fantasia contábil, e trabalha nos bastidores para desfazer justamente aquilo que anunciou como diferencial. É a alquimia do marketing moderno: transformar uma mentira em característica premium, e ainda cobrar mais caro pela dobra do truque.
A lição que fica não é técnica, é civilizacional. O cidadão que não desenvolve pensamento crítico diante do número grande vai atravessar a vida sendo tosquiado por quem sabe empilhar zeros com desenvoltura. Vale para câmera de celular, vale para promessa de político, vale para juros compostos escondidos em letra miúda. Aprender a desconfiar do algarismo espetacular é, no fundo, o começo de toda liberdade intelectual. Enquanto isso, tire suas fotos, mas saiba que a beleza da imagem depende infinitamente mais do olho de quem fotografa do que do folheto que convenceu você a pagar o triplo pelo aparelho.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.