A cena se repete em toda metrópole brasileira. O motorista para no sinal vermelho às três da manhã, sem viva alma na rua transversal, esperando dois minutos para o farol entender que ninguém vai atravessar. É a lógica industrial do século vinte aplicada ao trânsito do século vinte e um, temporizadores mecânicos que não sabem se está passando um caminhão ou uma bicicleta. Diante desse absurdo, as prefeituras anunciam a redenção: os semáforos inteligentes, equipados com câmeras, sensores e algoritmos que prometem ler o fluxo em tempo real e ajustar tudo sozinhos. É bonito no papel, é eficiente na demonstração, e ninguém está discutindo o que realmente importa.
Cidades como Curitiba, São Paulo, Fortaleza e algumas menores no interior paulista já testam esses sistemas. Câmeras de alta resolução leem placas, contam veículos, distinguem carros de motos, motos de pedestres, e alimentam modelos que recalculam o ciclo do semáforo a cada poucos segundos. A economia de tempo pode chegar a vinte, trinta por cento em corredores bem calibrados. Isso é fato, e é bom que seja dito, porque nem tudo que vem embrulhado em jargão tecnológico é mentira. O problema não está na engenharia. Está no que vem junto com ela, escondido debaixo do capô da promessa.
Todo sistema de câmera que lê placa em tempo real é, por definição, um sistema de vigilância veicular em massa. O algoritmo que decide se você espera cinco ou quinze segundos no vermelho é o mesmo que sabe exatamente onde você estava às sete da noite de terça-feira, quanto tempo demorou para chegar em casa, se passou perto de um comício, de uma igreja, de um clube. Essa informação existe, é gerada, é armazenada, e alguém decide o que fazer com ela. As prefeituras juram que os dados são anônimos, agregados, protegidos. As mesmas prefeituras que perdem senha de banco de dados de contribuinte a cada seis meses. É pedir para acreditar em conto de fadas.
Segue-se o dinheiro e a história fica mais interessante. Os contratos desses sistemas raramente são desenvolvidos in loco por engenheiros brasileiros pagos com salário decente. São, quase sempre, licenças de empresas estrangeiras, geralmente chinesas ou americanas, que instalam o hardware, fornecem o software fechado e cobram assinatura mensal pelo serviço. A prefeitura vira inquilina do próprio trânsito. Os dados, no melhor cenário, ficam num servidor local. No cenário provável, transitam por nuvens que ninguém sabe onde estão fisicamente. A soberania urbana virou coisa que se aluga em pacote plurianual, com reajuste indexado ao dólar.
Existe uma alternativa técnica e ela é embaraçosa de tão óbvia. Algoritmos de otimização de fluxo em semáforos são problema resolvido há décadas na literatura de engenharia de tráfego. Códigos abertos existem, funcionam, são auditáveis. Sensores indutivos no asfalto, muito mais baratos e infinitamente menos invasivos que câmeras, resolvem noventa por cento dos casos. Mas sensor de indução não gera contrato de manutenção gordo, não fornece dado revendível, não impressiona em coletiva de imprensa. Câmera com inteligência artificial fica melhor na foto do prefeito. E foto de prefeito, no fim das contas, é o único algoritmo que essa gente sabe rodar direito.
A tecnologia que resolve o congestionamento é benvinda. A tecnologia que resolve o congestionamento em troca de transformar cada cruzamento num posto de vigilância permanente, operado por empresa estrangeira, com dados que ninguém audita, é outra coisa completamente distinta. É um mau negócio disfarçado de progresso. E o motorista, esse pobre coitado, continua achando que ganhou alguma coisa porque atravessou a avenida três minutos mais rápido, sem perceber que pagou pela conveniência com uma moeda que ele nunca vai conseguir de volta.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.