O caso aconteceu em São Francisco, terra prometida da tecnologia sem atrito, cenário perfeito para a alegoria. Dois menores de idade embarcaram num robotáxi da Waymo portando um AR fantasma, aquele tipo de arma montada em casa sem número de série, e em algum momento da corrida o veículo simplesmente parou, acionou as autoridades e esperou pacientemente que a polícia chegasse para levar os passageiros ao juizado. Nenhum motorista, nenhuma testemunha humana, nenhum julgamento subjetivo. Apenas o carro, os sensores e a decisão fria de que aqueles dois cidadãos precisavam ser entregues. O relatório policial, com sua elegância burocrática costumeira, não esclareceu quem exatamente comandou a manobra. E é justamente aí que mora o problema.

Convém lembrar que durante séculos o transporte foi um dos últimos redutos da privacidade itinerante. A carruagem, o cavalo, o automóvel, o táxi conduzido por um sujeito de carne e osso que no máximo resmungava sobre política e futebol, tudo isso constituía uma bolha onde o passageiro era, no mínimo, opaco ao poder público. O motorista podia até desconfiar de algo, mas precisava tomar uma decisão humana, com todos os freios morais e legais que isso implica, incluindo o risco de errar e responder por isso. O robotáxi eliminou essa fricção. Não há hesitação, não há empatia, não há dúvida razoável. Há apenas protocolo.

Note como a narrativa oficial vai vender esse episódio nos próximos dias. Dirão que o sistema funcionou, que a tecnologia salvou vidas, que menores armados foram retirados das ruas por um veículo cívico e responsável. E talvez, no caso específico, os moleques estivessem mesmo aprontando alguma. O ponto, contudo, não é esse. O ponto é a arquitetura que se está construindo diante dos nossos olhos, silenciosa, celebrada, aplaudida por editorialistas que jamais leram um contrato de termos de uso na vida. A cada corrida numa dessas frotas, câmeras internas, sensores de peso, microfones, geolocalização e reconhecimento facial produzem um dossiê sobre o passageiro que faria a antiga Stasi corar de inveja profissional.

E aqui a coisa se complica, porque o direito de andar armado, tema espinhoso e legítimo em qualquer sociedade livre, se dilui frente a uma nova categoria de vigilância: a do próprio meio de transporte enquanto agente do Estado. Não é preciso ser entusiasta de armamento para reconhecer o precedente. Hoje é o fuzil sem número, amanhã é a conversa suspeita captada pelo microfone da cabine, depois de amanhã é o adesivo político errado no notebook do passageiro. A régua se move sozinha, sempre no mesmo sentido, e quem opera a régua não presta contas a ninguém que o cidadão comum consiga alcançar.

Siga a trilha do dinheiro e você encontrará frotas subsidiadas por gigantes da publicidade digital, cujo modelo de negócio inteiro depende de saber onde você está, com quem conversa e o que carrega na mochila. Essas empresas não vendem transporte, vendem passageiros, empacotados em dados vendáveis para seguradoras, anunciantes e, quando conveniente, para o próprio governo mediante um pedido educado ou uma intimação genérica. O robotáxi é a evolução natural do celular na sua algibeira, só que agora com quatro rodas, ar-condicionado e a capacidade de trancar as portas até a viatura chegar. Chamam isso de mobilidade. O nome antigo era outro.

A pergunta que ninguém está fazendo, portanto, não é se a Waymo agiu certo ao acionar a polícia contra dois adolescentes armados. A pergunta é quem definiu os critérios, quem escreveu o algoritmo, quem revisou o código, quem audita o log e quem responde no dia em que o carro parar sozinho para entregar um jornalista que estava indo cobrir uma manifestação incômoda ao poder. Enquanto essas perguntas não tiverem resposta, e elas não terão tão cedo, cada corrida nesses veículos é uma pequena aula prática sobre o que significa trocar autonomia por conveniência. E historicamente, quem faz essa troca raramente consegue desfazê-la.

Com informações da The Verge. A análise e opinião são do O Algoz.