Existe uma operação de prestígio em curso há décadas na indústria do entretenimento, e ela funciona com uma elegância que qualquer mágico de circo invejaria. O truque é simples: pegue uma obra literária que já percorreu o ciclo completo de consagração, aquela que passou pelo crivo da academia, virou leitura obrigatória em algum vestibular ou ganhou o tipo de resenha que ninguém lê mas todo mundo cita, e transforme-a em produto audiovisual. Pronto. O produto carrega agora o peso moral do livro sem precisar sustentar o rigor intelectual dele. A crítica especializada, que considera vulgar elogiar um blockbuster comum, curva-se diante da adaptação porque, no fundo, está elogiando o original. E o assinante, que pagou a mensalidade com aquela culpa difusa de quem não lê o suficiente, finalmente encontra a redenção: está consumindo cultura sem abrir uma página.
A pergunta que ninguém faz, porque estraga o prazer do consumo virtuoso, é a seguinte: quem ficou com o dinheiro nessa transação? O autor, em geral, recebeu uma quantia que parece generosa até você comparar com o que a plataforma movimentou nos trimestres seguintes ao lançamento. Os direitos de adaptação são negociados num mercado onde uma das partes tem advogados especializados em fazer contratos de 80 páginas parecerem razoáveis, e a outra parte é um escritor que passou cinco anos sozinho construindo mundos de palavras e de repente se vê diante de uma proposta que, comparada ao zero que qualquer manuscrito rende enquanto espera na gaveta, soa como fortuna. A propriedade intelectual, como toda propriedade que o Estado regula com entusiasmo desproporcional, tende a beneficiar quem tem estrutura para explorar os mecanismos legais, não quem criou a obra. Cria-se uma ilusão de que o criador foi recompensado enquanto a maior fatia migra silenciosamente para os intermediários institucionais.
Há nesse fenômeno uma lógica mais profunda e mais irritante do que a mera ganância corporativa, que ao menos é honesta nos seus objetivos. O que incomoda é a instrumentalização da literatura como verniz moral sobre um produto que, retirado o verniz, frequentemente não se sustenta por conta própria. Quando a história precisa do nome do livro na chamada para que o espectador sinta que está fazendo algo mais elevado do que simplesmente se entreter, o que está sendo admitido, nas entrelinhas do marketing, é que o produto não confia em si mesmo. O cinema clássico não precisava anunciar que era baseado em algo mais nobre; ele simplesmente era ou não era bom. Hoje, o "baseado no livro mais vendido do New York Times" funciona como o título de nobreza que certos regimes despachavam a famílias burguesas que tinham dinheiro mas precisavam de respeito: comprado, não conquistado, porém igualmente eficaz na hora de intimidar o plebeu.
Desmontado o prestígio, o que resta é a análise honesta do que essas produções fazem com as obras que adaptam. E aqui o registro muda de irônico para severo. A adaptação literária, quando feita com seriedade, é um exercício de tradução entre linguagens distintas: a palavra cria imagens no interior do leitor, a imagem as impõe de fora. São atos diferentes, com virtudes diferentes, e a superioridade de um sobre o outro não é automática nem garantida. O problema começa quando a adaptação não é tradução, mas sim reescrita ideológica com o livro original como fachada. Personagens têm suas motivações alteradas para se encaixarem no vocabulário moral do momento. Enredos são podados onde contradizem o consenso e alargados onde o reforçam. O livro empresta o título e a fama; a plataforma insere o roteiro que queria fazer desde o início. Chama-se isso de "atualização" ou "nova perspectiva", que são os eufemismos que o poder sempre inventou para nomear o que prefere não descrever com precisão.
Não se trata de nostalgia reacionária nem de purismo literário de antiquário. Trata-se de nomear as coisas pelo que são: quando uma obra é adaptada de maneira a contrariar sistematicamente as premissas do original, o que se está produzindo não é uma versão do livro, mas um produto novo que usa o livro como escudo contra a crítica. E essa estratégia tem custos que o mercado não contabiliza porque não sabe como precificar o que acontece com uma cultura que aprende a admirar invólucros. A série termina, a assinatura se renova, o algoritmo recomenda a próxima, e a obra original fica na prateleira cumprindo a função decorativa que sempre ameaçou cumprir nas casas onde os livros existem para impressionar visitas. Quem paga? O espectador, com o tempo, com a mensalidade e com a capacidade de fazer perguntas que foi lentamente substituída pelo conforto de receber respostas embrulhadas em produção cinematográfica impecável.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.