O brasileiro acordou e descobriu, via Datafolha, aquilo que a geladeira vazia já tinha avisado faz tempo: 59% dizem que o que entra no fim do mês não dá para pagar o que precisa, e 45% admitem que estão correndo atrás de bico, freelance, revenda de marmita, qualquer coisa que tape o buraco. Traduzindo do dialeto dos institutos para a língua do açougueiro: o salário virou enfeite, contracheque virou piada interna, e a classe trabalhadora, aquela mesma que paga a conta de tudo, está oficialmente quebrada. E ainda terá que sorrir para a câmera quando o próximo ministro disser, com a cara mais lavada do país, que a economia vai bem.
Convém perguntar, porque é a única pergunta que importa, quem está do outro lado dessa equação. Se 59% perderam, alguém ganhou, porque dinheiro não evapora, ele muda de bolso. Cada ponto percentual de inflação é um imposto silencioso, cobrado sem voto, sem lei, sem aviso, e o caixa dessa cobrança fica num prédio chique em Brasília que imprime papel colorido enquanto o cidadão imprime currículo. O Tesouro engole, o BNDES distribui para amigos do rei, a Receita cobra a diferença, e ainda há quem se espante que o trabalhador esteja vendendo brigadeiro no semáforo. A engrenagem não está quebrada, ela está funcionando exatamente como foi projetada.
O bico, esse personagem novo na vida do brasileiro médio, não é símbolo de empreendedorismo, é diagnóstico de falência. Quando o pedreiro vira motorista de aplicativo à noite, e a professora vende bolo no zap de manhã, e o aposentado fatura a aposentadoria três dias depois de receber, isso não é pujança da economia criativa, é o que se chamava, em séculos menos eufemísticos, de servidão por dívida. A diferença é que a corrente agora se chama Pix parcelado, cartão rotativo a 400% ao ano e consignado para servidor que já comprometeu setenta por cento do contracheque. O senhor feudal cobrava o dízimo; o nosso cobra carnê-leão, ICMS embutido, PIS, Cofins, IPVA, IPTU, taxa de iluminação, contribuição sindical fantasma e, no domingo, mega-sena para sustentar a esperança.
A propaganda oficial vai dizer que a culpa é do mercado, do capital, do supermercado ganancioso, do posto que reajustou a gasolina. É o velho truque do batedor de carteira que grita pega ladrão. Preço não sobe por capricho do empresário, sobe porque o governo gasta mais do que arrecada, financia esse rombo emitindo moeda, e a moeda emitida sem lastro vira exatamente isso, papel que compra menos pão a cada semana. O empresário é apenas o mensageiro; quem incendeia a tabela de preços é o senhor que assina decretos com caneta de ouro e jura, de mão no coração, que vai combater a carestia criando mais um programa, mais uma secretaria, mais um cargo comissionado para o cunhado.
O resultado dessa alquimia ao contrário, em que ouro vira chumbo e trabalho vira esmola, é uma sociedade onde a maioria precisa pedir licença ao próprio orçamento para comprar carne no domingo. E o mais grotesco é que essa mesma maioria ainda acredita que a solução é eleger outro salvador, outro pacote, outro auxílio com nome de santo. É como pedir ao incendiário que apague o fogo cobrando hora extra. O cidadão médio aprendeu a discutir time de futebol, novela e celebridade, mas nunca lhe ensinaram, e foi cuidadosamente nunca lhe ensinado, que cada real de imposto é um pedaço da sua liberdade leiloado em troca de uma promessa que nunca chega.
Então fica registrado, para quando o próximo discurso ufanista vier acompanhado de gráfico colorido: 59% não estão reclamando, estão constatando. A conta não fecha porque foi desenhada para não fechar, e o desenhista assina embaixo com sorriso de ministro. Enquanto o brasileiro vende almoço para pagar janta, o andar de cima brinda com vinho importado isento de imposto via cota diplomática. Quem paga é sempre o mesmo, quem recebe também. E o resto é folclore eleitoral.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.