Quatro anos atrás prometeram a Moscou uma cavalgada triunfal de três dias até Kiev, com desfile, bandeira hasteada e povo agradecido jogando flores. Neste domingo, dezessete de maio, a conta dessa promessa chegou na forma de quase seiscentos drones zumbindo sobre o território russo, deixando ao menos quatro mortos e expondo, melhor que qualquer discurso, a distância sideral entre a propaganda do palácio e a realidade do campo. O maior ataque noturno desde o início do conflito não foi obra de algum gênio militar ocidental: foi a consequência aritmética de uma guerra que ninguém quis terminar porque, para os que mandam, ela ainda paga bem.

Há uma lei não escrita que governa toda aventura imperial desde que o mundo é mundo. Quando uma potência invade o vizinho prometendo vitória relâmpago e se atola por anos a fio, alguma coisa de muito lucrativo está acontecendo nos bastidores. Pergunte aos romanos no fim da campanha gaulesa, pergunte a Napoleão depois da Espanha, pergunte aos americanos no Vietnã ou no Afeganistão. A guerra que se prolonga sem objetivo claro nunca é um acidente de cálculo; é um modelo de negócio. Alguém está faturando com cada projétil disparado, com cada contrato de reconstrução assinado no papel, com cada manchete patriótica que justifica o aumento do orçamento militar no ano seguinte.

Do lado russo, a fatura é paga pelo camponês de Belgorod que acorda com vidro estilhaçado no rosto, pelo conscrito de vinte anos enviado para uma trincheira lamacenta em nome da grandeza eslava, pela dona de casa que vê o rublo derreter enquanto o oligarca embarca o iate para Dubai. Do lado ucraniano, a fatura é paga pela mãe que enterra o filho e pelo contribuinte europeu e americano que financia, sem nunca ter sido consultado em referendo, uma máquina de moer carne humana que enriquece fabricantes de armamentos a milhares de quilômetros do front. Os mortos têm endereço. Os lucros também. Curiosamente, os endereços nunca coincidem.

O detalhe delicioso da história é que o autocrata do Kremlin, que construiu sua mitologia pessoal sobre a ideia de fortaleza inexpugnável, agora administra um país cujo céu interior virou alvo de tiro. Vendiam o sistema antiaéreo russo como o melhor do mundo, vendiam a inteligência militar como herdeira da KGB, vendiam o exército como segundo mais poderoso do planeta. Bastaram quatro anos de realidade para que o segundo exército do mundo se revelasse, na melhor das hipóteses, o segundo exército da Ucrânia. Quem comprou essa propaganda na Europa, no Brasil ou nos cafés geopolíticos da internet deveria, no mínimo, pedir o dinheiro de volta. Não vai pedir, claro. Reconhecer que se foi enganado dói mais que continuar enganado.

O mais cômico é observar a torcida organizada que ainda hoje, do conforto de um apartamento em São Paulo ou de uma universidade em Berlim, agita bandeirinhas por um lado ou pelo outro como se aquilo fosse uma final de campeonato. Não é. É a destruição metódica de duas nações que, somadas, alimentam o caixa de meia dúzia de complexos industriais militares, de algumas centenas de traders de commodities e de uma corte de generais aposentados que viraram comentaristas de televisão. A guerra é o programa redistributivo mais eficiente já inventado, só que redistribui na direção contrária à que os panfletos prometem: tira de quem trabalha, dá a quem fabrica obuses.

Seiscentos drones numa noite são um lembrete grosseiro de que toda violência institucional, mais cedo ou mais tarde, encontra seu eco. Quem desperta o cão de guerra raramente é quem é mordido por ele, mas o cão sempre morde alguém, e o alguém quase sempre é o pagador da ração. Enquanto a indignação seletiva escolhe seus vilões conforme a conveniência do dia, o sangue continua escorrendo nos dois lados da fronteira e os contratos continuam sendo assinados nos dois lados do Atlântico. A pergunta honesta, a única que importa, ninguém quer fazer em voz alta: depois de quatro anos, quem está mais rico?

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.