Chegamos ao ponto em que um veículo que se pretende relevante no debate nacional reserva espaço editorial para ensinar o cidadão a lavar toalhas. Sete dicas, nada menos. Sete pérolas de sabedoria doméstica para que suas toalhas cheirem a lavanda enquanto o país inteiro cheira a mofo institucional. Não é piada, embora devesse ser. É o retrato perfeito de uma sociedade que foi tão domesticada, tão infantilizada pela tutela permanente, que aceita de bom grado que lhe digam como operar uma máquina de lavar. O sujeito que paga quarenta por cento de tudo que ganha em tributos, que sustenta ministérios, agências reguladoras, fundos partidários, emendas parlamentares, estatais deficitárias e uma burocracia que se reproduz como fungo em toalha úmida, esse mesmo sujeito precisa que o jornal lhe ensine a diferença entre sabão líquido e sabão em pó. A pergunta que ninguém faz é simples: como chegamos aqui?
A resposta, como sempre, está no dinheiro. O brasileiro médio trabalha de janeiro a junho só para pagar impostos, e o que recebe em troca? Hospitais onde se morre na fila, escolas que produzem analfabetos funcionais, estradas que destroem suspensão e uma segurança pública que é piada de mau gosto. Mas o aparato estatal, esse sim, opera com a eficiência de um relógio suíço quando se trata de arrecadar, de criar novas taxas, de inventar contribuições, de sequestrar o fruto do trabalho alheio sob o pretexto solene de "interesse público". Interesse público. A expressão mais elástica da língua portuguesa, que serve para justificar desde a construção de uma ponte até a compra de lagosta para o refeitório de tribunal. O cidadão, esmagado por essa máquina, volta para casa exausto e descobre que nem a toalha dele cheira bem. E ao invés de perguntar por que trabalha tanto e vive tão mal, ele clica nas sete dicas. O sistema agradece.
Há algo de profundamente revelador nessa pauta. Ela é o sintoma de uma cultura que trocou a autonomia pelo conforto da dependência. O homem que construiu civilizações, que atravessou oceanos, que domou continentes, agora precisa de um tutorial para lidar com pano molhado. Não é culpa dele, ou pelo menos não é só culpa dele. É o produto final de décadas de um projeto que visa exatamente isso: criar um povo que não pensa, que não questiona, que não se governa. Um povo que espera instruções. A escola pública não ensina a pensar, ensina a obedecer. A mídia não informa, distrai. A regulação não protege o consumidor, protege o cartel. Cada novo decreto, cada nova portaria, cada nova "política pública" é mais um tijolo no muro que separa o indivíduo da sua própria capacidade de resolver problemas. E quando você tira do homem a competência de resolver o trivial, ele certamente não vai conseguir resolver o essencial. Que é, no caso, descobrir que o cheiro ruim não vem da toalha, vem do ralo por onde escoa o dinheiro dele todo santo mês.
Veja a ironia: o país que não consegue tratar o esgoto de cinquenta por cento dos seus municípios se permite dar lições de higiene têxtil. O mesmo Estado que despeja dejetos in natura nos rios, que transforma praias em fossas a céu aberto, que faz do saneamento uma promessa eterna de campanha, esse mesmo Estado, por meio de seus mecanismos culturais e midiáticos, sugere que o problema está na sua lavanderia. É a velha técnica: quando o palácio fede, diga ao povo que o problema é a casa dele. Funciona há séculos. Funcionou com os faraós, que convenciam o camponês de que a seca era castigo dos deuses e não incompetência da administração. Funciona hoje com burocratas que convencem o contribuinte de que o serviço é ruim porque "falta arrecadação", nunca porque o dinheiro foi desviado, emendado, loteado, superfaturado e finalmente enterrado em alguma obra inacabada que enfeita a paisagem como um monumento à impunidade.
O leitor atento vai dizer que estou exagerando, que é apenas uma matéria leve sobre cuidados domésticos. E é exatamente esse o ponto. A leveza é a estratégia. Enquanto você aprende a pré-molhar a toalha com vinagre e bicarbonato, o Congresso aprova mais um pacote de bondades com o seu cartão. Enquanto você se preocupa com a maciez do tecido, o Banco Central imprime moeda que corrói o poder de compra do seu salário, que é o roubo mais elegante já inventado, porque não precisa de arma, só de uma impressora. A inflação é a mão invisível do Estado no seu bolso, e ela não tira só o perfume da toalha, tira a dignidade do trabalho, tira o futuro da poupança, tira a possibilidade de você um dia parar de receber dicas e começar a dar as cartas. Mas isso, evidentemente, não rende sete tópicos simpáticos para o algoritmo. O que rende é ensinar a lavar toalha. Porque povo que lava toalha direito não faz revolução. Só dobra o pano, guarda no armário e volta a trabalhar para sustentar quem lhe rouba sorrindo. O cheiro de limpeza que você procura na toalha é o mesmo que nunca vai encontrar na administração pública. E o segredo para mantê-lo duradouro, se alguém realmente quer saber, não está em nenhuma dica de lavanderia. Está em parar de financiar a sujeira.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.