Abra qualquer portal nesta semana e lá está ele, o artigo-zumbi que ressuscita a cada três meses, anunciando em letras garrafais que sua esponja é pior do que o assento de um sanitário de rodoviária. A reportagem promete sete erros, porque é sempre sete, número mágico do jornalismo de revista de banca, e descreve como cada gesto banal do dono de casa, lavar a louça, enxugar a bancada, guardar o pano no varal, está na verdade criando uma pequena chernobyl microbiológica entre a pia e a geladeira. O leitor fecha a aba aterrorizado e, sem perceber, já está mentalmente adicionando mais um borrifador de multiuso na próxima lista do supermercado. Missão cumprida.

A pergunta que ninguém faz, porque faria o texto desabar, é elementar: quem ganha dinheiro com o seu pânico? Não é o germe, que continua sua vida microscópica sem patrocinador. É a fileira de empresas químicas que precisa justificar margens obscenas sobre uma mistura de água, tensoativo e perfume; é o portal que vende espaço publicitário logo abaixo da matéria assustadora, num milagroso alinhamento editorial; é o influenciador com parceria pontual que descobre, em plena revelação mística, que o desinfetante da marca X mudou sua vida. A velha taverna medieval vendendo amuleto contra peste aprendeu a usar CNPJ e assessoria de imprensa, mas a mecânica é a mesma desde que o primeiro xamã descobriu que susto gera oferenda.

O que a coluna honesta diria, se coluna honesta ainda fosse artigo de primeira necessidade, é que a dona de casa brasileira média, com seu bom senso de quinhentos anos de cozinha viva, sabe mais de higiene prática do que a maior parte dos redatores que lhe explicam o óbvio. Trocar pano de prato quando ele cheira mal, lavar a esponja de vez em quando, não deixar frango cru pingando em cima da alface, secar a bancada depois do jantar, escorrer a louça antes de guardar. Isto não é ciência de ponta, é civilização. Sua bisavó, sem mestrado em microbiologia, criou dez filhos numa cozinha a lenha e ninguém morreu por causa da tábua de carne, porque o remédio contra bactéria nunca foi o produto milagroso, foi o sabão comum aplicado com regularidade, uma virtude tão antiga quanto entediante para quem precisa preencher manchete.

Há, claro, um fundo de verdade na lista recorrente. Esponja velha acumula mesmo uma fauna respeitável; pano úmido empilhado cria colônia; a tábua que corta tudo sem nunca ser lavada a fundo vira problema real. O ponto não é negar a biologia, é recusar a histeria. Entre lavar a louça com atenção e transformar a cozinha em sala de cirurgia há um oceano, e é exatamente nesse oceano que nada o marketing do pavor, incentivando o cidadão a comprar sete frascos diferentes quando um bom detergente neutro, água quente e cotovelo resolvem noventa por cento da equação. Note o padrão: toda vez que um problema pequeno é inflado em catástrofe iminente, aparece pronta, logo ali, a solução engarrafada que custa dez vezes mais do que custaria se o cliente estivesse calmo.

O mesmo mecanismo se repete em escalas maiores e mais caras, da agenda climática ao alarmismo nutricional, da reforma educacional ao pacote sanitário do próximo inverno. Primeiro se fabrica o medo com estatística convenientemente amputada de contexto, depois se apresenta o produto, o imposto, a regulação, a campanha, o selo, o curso, o consultor. Quem paga é sempre o mesmo sujeito, aquele que está agora enxugando a bancada da cozinha com um pano talvez não tão imaculado, mas também não tão mortífero quanto querem convencê-lo. Quem recebe é a cadeia inteira que aprendeu que cidadão assustado é cidadão dócil, e cidadão dócil abre a carteira sem pechinchar. A esponja da pia virou metáfora involuntária do país: tem sujeira de verdade, sim, mas o susto vendido sobre ela custa mais do que a limpeza resolveria.

O conselho prático sobra em três linhas e não rende reportagem. Lave a louça depois de usar, troque esponja quando estiver esfarrapada, não misture carne crua com alimento pronto, seque o que ficar molhado, abra a janela. Pronto, economizou trezentos reais em produtos supérfluos e duas horas de leitura alarmista por mês. Use o tempo e o dinheiro para ler coisa séria, para cozinhar com calma, para conversar com quem vive na mesma casa. Quanto à indústria do pavor higiênico, que continue gritando que o lobo está na pia. Enquanto o dono da cozinha mantiver o bom senso da bisavó, o lobo segue onde sempre esteve, entre as letras miúdas do rótulo e a coluna patrocinada de amanhã.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.