O número salta da página como soco em mesa de bar. Oitenta e oito por cento dos eleitores ouvidos pelo Datafolha querem que o senador Flávio Bolsonaro siga na disputa, enquanto sessenta e quatro por cento desses mesmos eleitores consideram que ele agiu mal ao pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. Não é contradição, é confissão. O brasileiro médio, esse personagem que os institutos de pesquisa tratam como esfinge, está apenas dizendo, com a franqueza de quem não foi treinado para ser hipócrita, que prefere ver o pugilista subir no ringue mesmo sabendo que ele já vendeu a luta. É a mesma multidão que paga ingresso para ver o circo, sabendo que o leão é manso e o trapezista bebe.
A pergunta que ninguém faz nas redações é a mais simples e a mais constrangedora: quem paga e quem recebe nesse arranjo. O senador pede, o banqueiro escuta, e o cidadão de carteira assinada custeia a estrutura toda, do salário parlamentar aos assessores, do plano de saúde vitalício à cota de combustível, sem nunca ter sido convidado para a mesa onde se decide o destino do dinheiro que ele suou para entregar ao Leão. O pedinte de gravata, esse personagem milenar que já frequentou as antessalas de imperadores romanos e os corredores de Versalhes, hoje veste terno de senador e usa o cargo como cartão de visitas para arrecadar o que ele chama, com pudor tardio, de ajuda.
O detalhe saboroso é que a indignação popular, capturada no índice de sessenta e quatro por cento, não se traduz em desejo de retirada. O eleitor reconhece a falha moral e ao mesmo tempo subscreve a permanência. Isso não é incoerência, é cálculo. O brasileiro descobriu, depois de décadas tropeçando nas próprias urnas, que substituir um político por outro é trocar de garçom no mesmo restaurante onde a comida sempre vem fria e a conta sempre vem dobrada. Se vai pagar caro de qualquer jeito, ao menos que o garçom seja conhecido, com manias já mapeadas e vícios já tarifados. A novidade assusta porque o desconhecido pode ser pior, e a história recente está cheia de provas dessa pedagogia amarga.
Há ainda um terceiro elemento que a manchete não destaca e que merece a lupa. O nome Vorcaro não caiu do céu. Banqueiro não distribui afeto, distribui crédito, e crédito sempre vem com juros, mesmo quando os juros são pagos em votos, em silêncios estratégicos ou em emendas convenientes. Quando um homem do dinheiro atende ao telefonema de um homem do poder, o que se firma ali não é amizade, é contrato. E todo contrato tem cláusula de inadimplência. A pergunta que precisa ecoar não é se o senador errou ao pedir, mas o que exatamente foi prometido em troca, e quem vai pagar a fatura quando ela vencer. Spoiler: a fatura sempre vence no contracheque do mesmo sujeito de sempre.
O resultado da pesquisa, lido com o estômago em vez de com o fígado, revela menos sobre o senador e mais sobre o eleitor. Estamos diante de uma plateia que aprendeu a separar o juízo moral do voto, que distingue o homem do personagem, que sabe que a política brasileira virou novela das oito e exige que o capítulo seguinte mantenha o vilão favorito no ar. É a democratização do cinismo, ou talvez apenas o reconhecimento, finalmente sem véus, de que a urna não é confessionário e o voto não é absolvição. O eleitor não está perdoando, está apenas se recusando a interromper a única coisa que ainda lhe oferece algum entretenimento gratuito num país onde até o pão encareceu.
No fundo, a moral da fábula é antiga e nunca envelhece. Quando o poder e o dinheiro se encontram numa sala fechada, alguém do lado de fora sempre acaba pagando a entrada, o ar condicionado e o cafezinho. E quando a pesquisa pergunta se o eleitor quer manter os personagens em cena, ele responde que sim, não por amor a eles, mas por desconfiança visceral de quem viria depois. É a sabedoria do camponês que prefere o lobo que já conhece o cheiro do galinheiro ao lobo novo, ainda faminto. Quem paga continua sendo o mesmo de sempre. Quem recebe apenas troca de roupa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.