Imagine um animal que pesa menos que uma mochila de executivo, mede dois metros de envergadura e sai das copas da floresta carregando, sem gemer, um mamífero adulto do tamanho de um cachorro médio. A harpia, também chamada de gavião-real, faz isso em silêncio, sem manifesto, sem plano diretor, sem consulta pública. Enquanto o cidadão comum precisa de três assinaturas para podar uma árvore no próprio quintal, essa ave executa a mais brutal das políticas de controle populacional sobre macacos, preguiças e quatis, e ninguém a processa por crime ambiental. Há uma lição embutida nisso que o leitor fará bem em segurar pela gola.
A floresta amazônica funciona há milhões de anos sob uma hierarquia que nenhum gabinete em cinco mil quilômetros de distância projetou. A preguiça come folha, o macaco come fruto, a harpia come o macaco, o fungo come a harpia morta, a floresta come o fungo. É uma engrenagem rigorosa, impiedosa, funcional. Nada de comitê intersetorial, nada de mesa de diálogo, nada de nota técnica. E funciona exatamente porque ninguém, do lado de cá da civilização, conseguiu meter a mão na engrenagem para corrigi-la em nome do bem comum. Toda vez que alguém tenta, o resultado é o de sempre, isto é, a engrenagem continua funcionando e o corretor continua cobrando pelo serviço.
Vale a pena fazer a conta, que é o único exercício honesto quando o assunto envolve dinheiro público. A harpia não recebe salário, não tira férias, não possui cargo comissionado, não tem assessor de imprensa, não participa de conferência em Dubai com diária em dólar. Ela apenas caça. Em contrapartida, a vasta indústria da preservação amazônica, formada por fundações, organismos multilaterais, secretarias, institutos e projetos de cooperação internacional, movimenta bilhões anuais alegando defender exatamente o ecossistema em que a ave opera de graça desde o Pleistoceno. Quem paga essa conta é o contribuinte brasileiro e o contribuinte europeu. Quem recebe é sempre o mesmo círculo de profissionais do bem que mora em capital, voa de executiva e escreve relatórios em inglês. A floresta continua lá, a harpia continua caçando, e o cheque continua sendo depositado.
Há uma ironia saborosa no fato de a ave mais poderosa do continente ser, simultaneamente, o símbolo perfeito do que os engenheiros sociais não compreendem. Ela não foi treinada, não foi planejada, não foi votada em assembleia. Resultou de um processo longuíssimo de competição, seleção e adaptação, exatamente aquilo que o espírito planejador mais detesta, porque é um processo que não precisa dele para acontecer. O mesmo vale para a vila de caboclos que vive na beira do rio há seis gerações, para o pequeno produtor que conhece o solo de cor, para o ribeirinho que sabe quando vem a cheia. Todos esses saberes são invisíveis para o olho do burocrata, que só enxerga o que cabe na planilha do Banco Mundial.
Quando um casal de harpias se instala em uma árvore, defende aquele território com uma intransigência que envergonharia qualquer proprietário rural. Não há grêmio, não há leilão, não há audiência pública. Há posse, há defesa, há transmissão do território ao filhote. É assim que a natureza organiza o mundo real, enquanto a fauna de chancela e bandeja, aquela que se reúne em coquetéis para discutir como salvar o planeta, dorme em colchão ortopédico em hotel cinco estrelas. A harpia dormiu a noite inteira de pé, no alto de uma castanheira, ao lado do ninho, com as garras cerradas em torno de um galho que aguenta duzentos e cinquenta quilos. A diferença entre as duas classes diz tudo sobre por que uma produz vida e a outra produz reunião.
Ria do espetáculo, portanto, porque a comédia está inscrita na cena. De um lado, uma criatura de nove quilos decide o destino da cadeia alimentar de um continente inteiro sem emitir uma única nota fiscal. Do outro, um exército de empregados públicos e consultores internacionais insiste que, sem sua generosa mediação, a floresta desmoronaria em uma semana. A harpia não pediu essa proteção. Os macacos também não. O rio não pediu. As árvores não pediram. Só quem pediu foi quem ia receber pelo serviço. E a conta, como sempre, chega no boleto do cidadão que nunca pisou na Amazônia, mas paga, todo mês, para que alguém finja que a está salvando.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.