A notícia chega embrulhada em papel de presente, com laço e tudo. A Airbus anuncia, sorridente, que vai abrir um segundo centro em Sevilha para transformar aviões comerciais em petroleiros militares voadores, dessas aeronaves que reabastecem caças no ar e permitem que bombardeiros cruzem oceanos sem pousar. O comunicado fala em capacidade ampliada, em demanda crescente, em cenário geopolítico desafiador. Tradução para quem não fala o dialeto das assessorias de imprensa: a guerra anda boa para os negócios e a fila de governos comprando ferramenta de matar nunca esteve tão comprida.

Convém parar um instante e perguntar a pergunta mais incômoda que existe em economia, aquela que ninguém faz porque a resposta sempre constrange. Quem paga essa farra de fábrica nova, quem assina o cheque dos pedidos que justificam a expansão, quem garante que o produto encontrará comprador? A Airbus não é uma start up de garagem que arriscou poupança de família. É um consórcio onde Estados europeus seguram ações, despejam subsídios, garantem encomendas e, na hora da crise, abrem o cofre do tesouro para socorrer. O dinheiro que constrói o galpão sevilhano sai do bolso do padeiro alemão, do encanador francês, do aposentado espanhol. O lucro, no entanto, segue rota mais discreta, vai para acionistas, executivos e para o circuito permanente de portas giratórias entre ministério da defesa e diretoria executiva.

Há uma elegância sinistra no arranjo. Vende se a expansão como triunfo da engenharia nacional, como prova de que o velho continente ainda sabe fazer coisa séria, e o cidadão médio aplaude porque foi treinado a confundir empresa estatizada com orgulho cívico. Ninguém menciona que o reabastecedor aéreo só existe como produto comercial porque governos compram em lote, com dinheiro coercivamente extraído, para sustentar projeções de força que beneficiam exatamente o mesmo establishment que decidiu pela compra. É um circuito fechado, uma cobra mordendo o próprio rabo, e no meio do círculo está o contribuinte, segurando a vela e pagando a luz.

A retórica oficial vai martelar a palavra soberania até gastar as sílabas. Dirão que a Europa precisa de autonomia estratégica, que não dá para depender dos americanos, que o mundo ficou perigoso. Tudo verdade parcial, dessas que servem para esconder a verdade inteira. Soberania de quem, exatamente? Do cidadão que vê seu imposto financiar uma indústria que ele jamais usará, ou do conglomerado que descobriu na palavra defesa o passe livre para qualquer orçamento? Quando um setor cresce porque o medo cresce, e o medo cresce porque o setor precisa crescer, estamos diante de uma engrenagem que se alimenta de si mesma. Premissa: governos compram armas porque há ameaças. Premissa menor: ameaças justificam mais governos comprando mais armas. Conclusão: a paz seria a falência do modelo, e nenhum modelo aceita falir voluntariamente.

Vale lembrar que toda potência decadente da história tropeçou no mesmo degrau. Roma sustentou legiões até quebrar o erário, a Espanha imperial arruinou se financiando tércios para guerras eternas em Flandres, a França bourbônica afundou em dívida de guerra até o povo descobrir o uso prático da guilhotina. O padrão se repete porque a tentação é a mesma, transformar o aparato bélico em motor econômico, confundir gasto militar com geração de riqueza, esquecer que cada euro gasto em um avião petroleiro é um euro que não foi gasto em hospital, escola, ou simplesmente deixado no bolso de quem o ganhou suando. A janela quebrada, dizia o velho ensaio, nunca enriquece ninguém, apenas redistribui a destruição.

Então fica o registro, sem floreio. Sevilha terá um novo centro industrial, alguns engenheiros terão empregos bem pagos, uma cidade comemorará a inauguração com fita vermelha e prefeito sorridente. O custo verdadeiro, espalhado em milhões de declarações de imposto, em décadas de orçamento desviado, em oportunidades produtivas que nunca existirão, esse custo não aparece em foto nenhuma. A festa é coletiva, a conta é individual, e o silêncio sobre quem realmente lucra é o som mais ensurdecedor da cerimônia. Quem paga? Você. Quem recebe? Eles. O resto é decoração.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.