Comece pelo absurdo cotidiano que ninguém nota. O vizinho planta uma mangueira a um metro do muro, ela cresce vinte anos, joga raiz no seu encanamento, derruba galho na sua garagem, suja o seu quintal de fruta podre, atrai morcego, e quando você pega a serra para resolver o problema aparece o militante de plantão dizendo que árvore é patrimônio coletivo. Patrimônio coletivo de quem? Quem rega? Quem aduba? Quem paga o conserto da telha quebrada? O coletivo nunca aparece com o talão de cheque, só com o sermão.

O Código Civil, num raro momento de lucidez, ainda preserva o óbvio. O que invade o seu terreno é seu, no sentido de que você pode cortar. Galho que ultrapassa a divisa, raiz que enfia o nariz no seu lote, fruto que cai do lado de cá, tudo isso entra no perímetro da sua soberania doméstica. O dono da árvore continua dono do tronco, e até dele se a coisa ameaçar ruína. É a velha lição que civilizações inteiras aprenderam antes de inventar a palavra sustentabilidade: cerca boa faz vizinho bom, e propriedade definida evita pancadaria na esquina.

Repare na lógica simples, daquelas que cabem em três linhas. Se a árvore é do vizinho, o vizinho colhe o benefício da sombra e da fruta. Se o galho passa para o seu lado, o ônus passou junto. Logo, o ônus segue o bônus, ou o bônus segue o ônus, e quem suporta o prejuízo tem o direito de aparar. Tirar essa simetria é construir o paraíso do parasita: o sujeito fica com a manga e empurra a goteira para o vizinho. Toda vez que alguém defende essa inversão, vale perguntar quem ganha e quem perde, porque a resposta nunca é o coletivo abstrato, é sempre alguém de carne, osso e advogado.

O complicador, claro, vem fardado. Em muitas cidades brasileiras a prefeitura decretou que a árvore, mesmo aquela que você plantou, mesmo aquela que está rachando seu muro, virou tutelada do município. Para podar precisa de licença, para cortar precisa de laudo, para tirar precisa de processo, e a multa por desobedecer custa mais que o telhado novo. Resultado: o cidadão paga IPTU sobre o terreno, paga seguro contra os danos da árvore, e ainda paga taxa para pedir permissão de mexer naquilo que está dentro da sua própria divisa. Três pedágios para exercer um direito que já era seu antes de o burocrata acordar.

É aqui que mora a piada amarga. O discurso ambiental, sempre solene, sempre de dedo em riste, na prática funciona como cobrador de pedágio. Quem manda na vegetação não é quem cuida, é quem carimba. E quem carimba não responde quando o galho cai no carro às três da manhã. A conta do estrago volta para o particular; a glória da preservação fica com o gabinete. É o velho truque de socializar prejuízo e privatizar elogio, agora vestido de verde.

Antes de pegar a tesoura de poda, portanto, faça o ritual moderno: avise o vizinho por escrito, registre as fotos, consulte a regra municipal, e se o município exigir licença para você defender seu próprio teto, considere que isso talvez diga mais sobre o tamanho do Estado do que sobre a delicadeza da árvore. A boa vizinhança nasce da divisa clara, não do sermão coletivista. Quando o limite some, o que invade não é só o galho, é a ideia de que existe algo que ainda é seu.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.