A ema é um bicho que envergonha qualquer plano quinquenal. Sem subsídio, sem ministério, sem secretaria, sem comitê interfederativo de fomento à corrida de aves de grande porte, o animal atinge sessenta quilômetros por hora em terreno aberto, bota ovos do tamanho de uma mão fechada e cuida da prole sem precisar de creche pública. É a maior ave das Américas, atravessa o cerrado com a desenvoltura de quem nunca pediu licença para existir, e faz isso há milhões de anos antes de qualquer fiscal pensar em carimbar uma autorização de manejo.

Repare na ironia geográfica: a ave prospera justamente nos espaços abertos, no campo limpo, na pastagem, no cerrado que o discurso oficial pinta como ecossistema agonizante. Onde o homem produz comida, ela corre solta. Onde o homem é proibido de produzir, ela some junto, porque mato fechado de mais não serve para quem precisa enxergar o predador a cem metros. Os mesmos burocratas que choram pela fauna são os que assinam decretos transformando pastagem em reserva intocável e depois se espantam quando a bicharada migra para a fazenda do vizinho. A natureza tem lógica própria, e ela raramente coincide com o organograma do palácio.

Agora façamos a conta de padaria que ninguém quer fazer. Para criar ema legalmente em cativeiro neste país, o cidadão precisa de registro em órgão ambiental, projeto técnico assinado por profissional habilitado, vistoria, taxa, renovação, relatório periódico e a benevolência caprichosa do servidor que aparece quando aparece. O vizinho que cria galinha caipira no fundo do quintal sem nada disso comete, no espírito da lei, a mesma transgressão moral, só que em escala menor. A diferença entre legalidade e ilegalidade no Brasil rural não está no ato, está na taxa paga. Quem recolhe ganha alvará. Quem não recolhe vira crime ambiental.

Pergunte quem paga e quem recebe nessa engrenagem. Paga o produtor, paga o pequeno criador, paga o curioso que queria apenas ter o bicho na propriedade. Recebe a estrutura administrativa que vive de emitir o papel, o consultor credenciado que cobra para preencher o formulário, a oenegê parceira que se apresenta como guardiã da espécie e captura recurso público para fazer o que a ave já fazia sozinha. A fauna virou pretexto para um arranjo de transferência de renda do campo para o gabinete, com discurso ecológico de embalagem.

O detalhe saboroso é que a ema, indiferente a tudo isso, segue produzindo ovo, segue correndo, segue se reproduzindo onde tem espaço e capim. Ela é o desmentido vivo da tese de que a vida selvagem depende da tutela do funcionalismo para existir. A espécie sobreviveu a jaguatiricas, secas, queimadas naturais e à colonização inteira. O que ela não conseguiu ainda foi sobreviver com folga ao gestor ambiental que confunde proteger com proibir e proibir com cobrar. Onde o pasto avança com regras claras de propriedade, a ave se multiplica. Onde a propriedade é dúbia e o uso é proibido, ela rareia. Coincidência das grandes.

Fica a lição que nenhum manual de educação ambiental vai imprimir: o bicho mais rápido do cerrado não precisou de política pública para chegar aos sessenta por hora. Precisou de espaço, de comida e de ser deixado em paz. Receita simples demais para sobreviver a uma reunião interministerial. Quem paga a conta da complicação é sempre o mesmo, e quem recebe também. A ema corre. O contribuinte é que não consegue fugir.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.