O brasileiro foi domesticado para acreditar que casa sólida é casa pesada, que tijolo é virtude moral e que parede só presta se sair suja, torta e cara. É a mesma pedagogia que ensinou o sujeito a achar bonito pagar imposto: quanto mais sofrimento no processo, mais legítimo o resultado. Acontece que existe, e já está em pé em milhares de obras pelo país, um sistema chamado Light Steel Frame, perfis de aço galvanizado montados a seco, sem cimento escorrendo pela calçada, sem caçamba ocupando rua por seis meses, sem pedreiro improvisando esquadro com barbante. A casa sobe em semanas. E é justamente por isso que tanta gente, do lobby da construção tradicional ao sindicato que vive da obra eterna, finge que o assunto não existe.
Pergunte ao leigo por que ele desconfia do método e ele repetirá, com a segurança de quem nunca leu uma linha sobre o tema, que aço enferruja, que parede oca não segura quadro, que vento forte derruba. Curioso: os mesmos argumentos foram usados contra o concreto armado no início do século vinte, contra o elevador, contra o avião comercial e contra praticamente qualquer inovação que ousasse contrariar o gosto do mestre de obras com trinta anos de prática e nenhum dia de estudo. A diferença é que, naqueles casos, o progresso passou por cima da resistência. Aqui, no trópico burocrático, a resistência virou política pública, código de obras, exigência de cartório e financiamento bancário desenhado a régua e compasso para favorecer quem já está dentro do esquema.
Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. Quem perde se uma casa de cento e vinte metros quadrados fica pronta em sessenta dias em vez de seiscentos? Perde a indústria do cimento, que vendeu ao país a fantasia de que sem o saco de cinquenta quilos não há civilização. Perde a cadeia do tijolo, que financia campanha de vereador em cidade pequena e aperta a mão de secretário municipal em cidade grande. Perde o banco, que ganha juros enquanto a obra se arrasta, e ganha mais ainda quando o orçamento estoura, como sempre estoura. Perde o fiscal, que vive de carimbar etapa por etapa de um processo desenhado para ter etapas demais. Perde o sindicato que cobra contribuição sobre cada mês a mais que o operário fica no canteiro. Ganha, no método novo, apenas o sujeito que queria uma casa: o cliente, esse personagem secundário no enredo da construção brasileira.
E aí a coisa fica didática. O sistema usa menos água, gera menos entulho, dispensa boa parte da mão de obra improvisada e entrega previsibilidade de prazo, o que em obra é quase um milagre teológico. Tudo o que o consumidor sempre quis. Tudo o que o arranjo nunca quis entregar. Não por incompetência técnica, veja bem, mas porque o atraso é o produto. O desperdício é o produto. A obra que nunca termina é o modelo de negócio. Quando alguém aparece oferecendo o oposto, a reação natural do sistema é tratar o intruso como herege, espalhar boato de que a parede chacoalha quando o gato pula no sofá e lobiar a Caixa para dificultar o financiamento de quem ousa sair do script.
A regulação, como sempre, chega vestida de zelo. Vai exigir laudo, contralaudo, parecer técnico, anuência de conselho profissional, taxa, contribuição, selo, certificação redundante, e cada carimbo desses tem um nome, um endereço e uma conta bancária do outro lado. É a velha alquimia tupiniquim de transformar segurança do consumidor em reserva de mercado. O resultado prático é que um método mais barato, mais limpo, mais rápido e mais preciso chega ao cliente final com preço artificialmente próximo do método antigo, porque foi preciso pagar o pedágio inteiro da burocracia para ter o direito de competir. E ainda assim vence, quando vence, na marra.
O fato concreto é que a casa sem tijolo não é futuro, é presente, e está erguida em condomínio de classe média, em projeto social, em pousada de litoral e em galpão industrial. O que ainda não caiu é o muro mental, esse sim feito de alvenaria pesada, erguido por décadas de propaganda interessada e mantido em pé pela inércia de quem acredita que casa boa é aquela que custou caro, demorou demais e fez o vizinho sofrer junto. Quando o brasileiro entender que sofrimento não é sinônimo de qualidade, e que prazo é dinheiro do bolso dele, não do empreiteiro, a parede de aço galvanizado vai parecer tão natural quanto a tomada na parede. Até lá, segue o teatro, com o tijolo no papel de protagonista e o cliente pagando o ingresso duas vezes.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.