No meio do cerrado bruto do Mato Grosso, num pedaço de chão que até ontem era pasto de onça e capim alto, brotou a cidade que mais cresceu no Brasil em três décadas. Mil cento e cinquenta e dois por cento. Leia de novo, com calma, porque esse número é uma bofetada na cara de todo burocrata que jura, de microfone em punho, que sem planejamento estatal o país vira o caos. Lucas do Rio Verde não existia, virou, e enquanto isso capitais históricas, regadas a repasses federais e secretarias com nomes pomposos, definham na inércia de seus próprios contracheques.

A receita do milagre, se é que se pode chamar assim, não tem nada de milagrosa. Abriram uma estrada, a BR-163, e em seguida apareceram homens dispostos a apostar o próprio pescoço numa terra que ninguém queria. Não foi o Ministério do Desenvolvimento Regional que arou o solo. Não foi nenhuma agência tripartite com sigla impronunciável que plantou a primeira soja. Foram sujeitos de carne e osso, com financiamento privado, risco privado, prejuízo privado quando deu errado, e lucro privado quando deu certo. A propriedade fez o que sempre fez quando deixada em paz: produziu riqueza onde antes havia apenas paisagem.

Compare com qualquer cidade tutelada. Pegue uma capital nordestina banhada em verbas, com seu exército de assessores, suas frentes parlamentares, seus comitês de fomento, seus planos plurianuais empilhados em estantes de mogno. Veja a curva populacional, veja a renda média, veja o orçamento per capita, e depois explique, sem gaguejar, por que o cerrado bruto venceu o asfalto subsidiado. A resposta não cabe num PowerPoint do Ipea, porque a resposta é justamente a ausência do PowerPoint. Onde o Estado chega tarde, a vida chega primeiro.

Os números do agronegócio local hoje envergonham países inteiros. Produtividade por hectare que faria europeu chorar, balança comercial que sozinha sustenta o dólar barato que o operário urbano usa para comprar celular importado, geração de emprego sem precisar de cota, de quota, de programa social com nome de santo. E o agradecimento que esse pessoal recebe? Caravanas de fiscais, ONGs financiadas por fundação alemã, repórteres de jornal carioca chamando produtor rural de devastador, e um Congresso que toda semana inventa um novo imposto para fatiar o que ele não ajudou a construir. O parasita sempre encontra o organismo vivo para se grudar; é a lei da natureza política.

Pois aqui está o silogismo que ninguém em Brasília tem coragem de enunciar em voz alta. Onde houve liberdade econômica, houve crescimento. Onde houve crescimento, houve riqueza. Logo, onde se deseja riqueza, deve haver liberdade econômica. É de uma simplicidade que ofende, porque ofender a inteligência do povo é o ofício da casta política. Eles precisam que você acredite que prosperidade é coisa complicada, que exige doutorado em Harvard, três conferências do Fórum Econômico Mundial e uma boa dose de imposto seletivo verde. Lucas do Rio Verde está lá, no meio do nada, gargalhando dessa teologia.

A pergunta que importa, sempre a mesma, é quem paga e quem recebe. Em Lucas, paga quem planta e recebe quem planta, com a interferência mínima de quem nada planta. No resto do país, paga quem trabalha e recebe quem legisla, quem fiscaliza, quem subsidia, quem regula, quem palestra. O modelo do cerrado funciona porque é, em essência, uma fuga geográfica do confisco. Enquanto a estrada de terra ainda for mais rápida que o boleto do imposto, haverá esperança. No dia em que a Receita chegar lá com a mesma eficiência com que chega ao centro de São Paulo, a cidade entra na fila da decadência. Aproveitem o espetáculo enquanto dura, porque o coletor de tributos já está a caminho, e ele nunca, jamais, se atrasou para uma colheita alheia.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.