Cuiabá passa dos 40°C com uma regularidade que já não surpreende ninguém, exceto, claro, os gestores públicos, que a cada verão descobrem pela décima vez que a cidade é quente. É um ritual sagrado: o termômetro sobe, o prefeito convoca coletiva, o secretário de meio ambiente fala em "plano de arborização", a imprensa registra, a câmara aplaude, e no ano seguinte repete-se a cena com os mesmos personagens usando gravatas diferentes. O problema nunca se resolve porque a solução nunca convém a quem decide.

Há uma lógica férrea no caos urbano de Cuiabá que escapa ao olhar sentimental sobre o sofrimento dos moradores. Cada árvore derrubada para abrir um loteamento foi autorizada por um servidor público que recebeu salário para assinar o papel. Cada recuo de calçada ignorado, cada córrego canalizado, cada praça concretada em nome do "desenvolvimento" passou pela mesa de alguém que, por coincidência assombrosa, nunca mora no bairro que aprovou. O Estado não falhou por incompetência pura. Falhou de forma seletiva, como sempre faz, beneficiando os que financiam campanhas e abandonando os que apenas votam.

O resultado está na rua: trabalhadores que precisam sair de casa às cinco da manhã para escapar do pico de calor, crianças que não vão à escola porque a sala é um forno, idosos que evitam a rua das onze ao três da tarde como se fosse toque de recolher. A cidade adaptou seus horários não por escolha cultural, mas por necessidade fisiológica de sobrevivência. E enquanto os pobres remarcam suas vidas ao ritmo do sol, os incorporadores que ergueram prédios de vidro no centro, aqueles que criaram as ilhas de calor com projetos aprovados pelo mesmo Estado que agora chora o clima, dormem em suítes climatizadas com a consciência absolutamente tranquila. Afinal, eles apenas obedeceram às leis. Às leis que eles mesmos ajudaram a escrever.

O ar-condicionado, claro, virou símbolo de classe em Cuiabá de uma forma que nenhuma outra cidade brasileira conhece com a mesma intensidade. Não é luxo, é triagem social. Quem tem aparelho sobrevive com relativo conforto. Quem não tem adapta o corpo, muda a rotina, adoece mais, produz menos, vive menos. E sobre essa conta de energia que explodiu nos últimos anos, convém perguntar: quem controla a distribuidora? Quem fixou as bandeiras tarifárias? Quem aprovou as concessões? O Estado outra vez, esse mesmo Estado que derrubou as árvores, aprovou os loteamentos e agora, com a solenidade que só o poder público consegue ostentar, anuncia programas de "resiliência climática" financiados com mais impostos dos mesmos moradores que estão sufocando.

A narrativa oficial prefere o conforto da culpa difusa, "as mudanças climáticas", "o aquecimento global", forças abstratas e universais contra as quais o gestor local nada pode fazer, coitado. É uma jogada retórica antiga, tão velha quanto a política: quando o resultado de uma decisão específica é ruim, transforme-a em fenômeno natural. Roma não queimou porque Nero era incompetente e corrupto, queimou porque o destino assim quis. Cuiabá não ferve porque décadas de gestão urbana criminosa transformaram a capital em deserto de concreto. Ferve porque o clima mudou. Não há réu. Não há responsável. Há apenas mais um programa governamental para resolver o problema criado pelos programas governamentais anteriores.

No final de tudo, o que a história de Cuiabá revela com uma clareza que dói é que o sofrimento tem endereço certo e o lucro também. O morador que reorganiza a vida inteira para sobreviver ao calor não tem lobista em Brasília. O incorporador que vendeu apartamento sem área verde e sem ventilação natural tem. O trabalhador que acorda às quatro da manhã para fazer o serviço antes do pico de calor não financia campanha. A construtora que demoliu a última mangueira velha do quarteirão para erguer mais um empreendimento "moderno e sustentável" financia. Siga o dinheiro, sempre. No final da trilha, você encontra tanto o responsável pelo problema quanto o beneficiário da solução que não resolve nada.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.