A notícia chega vestida de curiosidade inocente, dessas que rendem pauta de fim de tarde, mas esconde um detalhe que ninguém quer encarar de frente. Pesquisadores afirmam que cada ser humano tem, em algum lugar do mundo, ao menos dez cópias razoáveis do próprio rosto, gente sem qualquer parentesco capaz de passar por você no aeroporto, no banco, na fila do cartório. A imprensa trata o achado como anedota de bar, mística reciclada com verniz de laboratório. Pois bem, é justamente quando algo é vendido como folclore divertido que convém perguntar quem está lucrando com a gargalhada coletiva.
O fenômeno em si não é novo. Sósias sempre existiram, foram tema de comédia romana, peça de teatro elisabetano, romance de capa e espada, golpe de monarquia, dublê de tirano. O que mudou não foi a biologia, foi a infraestrutura. Antes, encontrar um duplo seu exigia o acaso de uma viagem improvável; hoje, basta um algoritmo treinado com bilhões de selfies extraídas de redes sociais que você alimentou de graça. A novidade, portanto, não está no fato genético, está na escala industrial que transformou semelhança em mercadoria. E mercadoria, como toda mercadoria, tem dono.
Siga o dinheiro e o passeio fica menos bucólico. Empresas de reconhecimento facial faturam bilhões vendendo seu rosto para governos, bancos, varejistas, polícias e seguradoras, sob a desculpa nobre da segurança e da conveniência. O Estado, sempre ele, compra esses bancos de dados com o seu próprio dinheiro, via imposto, e os usa para vigiar a porta de saída do shopping, o estádio de futebol, a manifestação política inconveniente. Você paga para ser fichado, e ainda agradece pela praticidade de destravar o celular com a cara. O contribuinte, esse herói involuntário, financia o coleira que lhe será posto.
Aí entra a parte cômica do enredo, aquela em que se descobre que dez pessoas no mundo têm o seu rosto. Se a máquina erra, e ela erra com generosidade, alguém será preso pelo crime de outro, alguém terá conta bloqueada por suspeita alheia, alguém perderá emprego porque um homônimo facial apareceu numa lista qualquer. A burocracia que prometia infalibilidade entrega, no fim, a velha roleta russa administrativa, só que agora com selo de ciência. E quando o equívoco aparece, ninguém é responsável, porque o algoritmo é neutro, dizem, como se neutralidade alguma vez tivesse existido em ferramenta paga por quem manda.
O ponto incômodo é simples e por isso ninguém quer dizê-lo em voz alta. Seu rosto é seu, deveria ser, em qualquer noção minimamente honesta de propriedade sobre si. No entanto, ele foi capturado, catalogado, comparado e leiloado sem que se lhe pedisse licença, sem contrato, sem contrapartida, sem direito de retirada. A reportagem fofa sobre os dez gêmeos cósmicos serve, no fundo, para naturalizar a ideia de que a sua face é estatística pública, dado de domínio comum, número de série andante. Quando aceitamos a piada, aceitamos a coleira.
Reste a velha pergunta, a única que importa quando a manchete chega embrulhada em encanto. Quem paga essa festa de reconhecimento universal, e quem recebe o cheque no fim do mês? Você paga, com seus dados, com seus impostos, com sua privacidade liquidada em parcelas mensais de conveniência. Recebem os fornecedores de tecnologia, os burocratas que aumentam orçamento, os políticos que prometem segurança em troca de submissão. Os dez sósias espalhados pelo mundo são o detalhe pitoresco; o verdadeiro espelho, o que devolve a imagem desconfortável, é o do contribuinte sorrindo para a câmera enquanto ela lhe registra para usos que jamais aprovou.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.