A internet brasileira parou diante de uma equação que cabe num guardanapo, (4 + 4 ÷ 4) × 4, e o resultado foi um vexame coletivo digno de antologia. Adultos formados, eleitores, contribuintes, pais de família, gente que assina contrato de financiamento de trinta anos, travaram diante de uma hierarquia matemática que já era ensinada nas escolas primárias da Primeira República. A resposta correta é vinte, porque a divisão se resolve antes da soma mesmo dentro dos parênteses, regra que tem séculos e que não admite plebiscito. Mas o brasileiro médio, treinado para confundir opinião com verdade, achou que poderia votar no resultado da conta.

O escândalo não está na continha, está no que ela revela. Uma sociedade que não sabe a ordem das operações é uma sociedade que não sabe distinguir causa de efeito, premissa de conclusão, gasto de investimento, imposto de serviço. É exatamente o tipo de população que governo nenhum gosta de ver bem formada, porque cidadão que domina lógica elementar começa a fazer perguntas inconvenientes do tipo, se eu trabalho doze horas e o Estado leva quarenta por cento, qual é exatamente a contrapartida que recebo em troca. Esse silogismo é mais perigoso que qualquer panfleto, e por isso a escola pública foi reduzida a uma fábrica de autoestima sem aritmética.

Pense no arranjo. Décadas de orçamento bilionário para a educação, sucessivos planos, secretarias, fundos, programas com nomes pomposos, conferências internacionais, especialistas com salário de juiz federal, e o produto final é um adulto que erra uma expressão de quatro símbolos. Quem pagou essa festa foi o pagador de imposto, o pedreiro que recolhe ICMS na cerveja, a costureira que recolhe IPI no tecido, o motoboy que recolhe Cide na gasolina. E quem recebeu foi a casta que vive da própria existência do problema, sindicalista profissional, burocrata de gabinete, fornecedor de apostila, consultor de metodologia ativa. O analfabetismo funcional não é falha do sistema, é o produto que o sistema entrega, porque é dele que vive a indústria que finge combatê-lo.

E note a malícia do truque pedagógico contemporâneo. Substituíram a tabuada pelo debate, a sintaxe pelo sentimento, a hierarquia das operações pela hierarquia das identidades. Disseram que matemática era opressora, que rigor era violência, que cobrar resposta certa era autoritarismo. O resultado está aí, uma geração que acha que vinte e dois é uma opinião tão legítima quanto vinte, porque ninguém pode ser dono da verdade. Pois bem, a divisão pode. A divisão é dona da verdade, e a verdade é que ela vem antes da soma. As coisas são o que são, não o que o consenso das redes sociais decide que sejam.

Há ainda o detalhe delicioso de que a mesma multidão que erra a continha é a que exige reforma tributária, controle de preços, congelamento de tarifa, tabelamento de juros, intervenção no câmbio. Quer pilotar o avião sem saber somar os passageiros. E os candidatos a piloto adoram essa plateia, porque eleitor que não calcula é eleitor que acredita em promessa de almoço grátis, em subsídio que não sai do bolso de ninguém, em programa social financiado pelo ar. O político profissional precisa do inocente útil que confunde parênteses com soberania popular, porque é nesse pântano cognitivo que florescem as carreiras de quatro mandatos consecutivos.

O verdadeiro problema, portanto, não é a expressão (4 + 4 ÷ 4) × 4. O verdadeiro problema é que essa mesma cabeça que trava na continha está, neste momento, decidindo quem vai administrar trinta por cento do PIB nacional, quem vai legislar sobre a propriedade da sua casa, quem vai definir o que você pode dizer na praça pública. Uma democracia em que o eleitor médio não domina aritmética de quinta série é uma democracia em que o resultado da urna tem o mesmo rigor da resposta errada da expressão, parece plausível, é defendido com paixão, e está completamente furado. Vinte, a resposta é vinte. E a conta da república continua sem fechar.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.