Fevereiro de 1951. Uma linha de montagem entra em operação em São Bernardo do Campo e o Brasil descobre que pode fazer carro. Não foi o Estado que apareceu primeiro com a ideia, foi o capital estrangeiro farejando mão de obra barata, território abundante e um mercado continental represado atrás de tarifas de importação que fariam corar qualquer alfandegário do século XIX. A Willys, depois a Ford, depois a Volkswagen, depois a Mercedes: vieram porque havia lucro, não porque havia virtude pública. E durante décadas produziram riqueza real, empregos reais, mobilidade real para uma classe operária que, sem aquelas fábricas, estaria catando café no interior ou engrossando as fileiras de uma pobreza sem nome nas periferias de São Paulo. Isso é o que a narrativa oficial convenientemente omite quando celebra o ABC como símbolo do Brasil industrial: a riqueza veio antes do sindicato, não por causa dele.
O problema com os rankings de qualidade de vida é que eles medem o presente e esquecem a conta. São Bernardo do Campo figura bem nessas listas porque ainda carrega no corpo a gordura acumulada por décadas de produção privada genuína, de investimento estrangeiro que nenhum discurso nacionalista conseguiu inteiramente afugentar. Mas pergunte a um economista honesto, daqueles que ainda existem em extinção semelhante à onça-pintada, quanto custou ao Brasil inteiro o modelo sindical-corporativista que nasceu exatamente ali, naquele chão de fábrica, no final dos anos 1970. A conta não aparece no ranking. Aparece na dívida pública, nas regulações kafkianas, no custo Brasil que faz o empresário chorar antes de abrir uma empresa e rezar antes de contratar alguém.
Há uma ironia que a história raramente serve gelada com a clareza que merece: a região que mais dependia do capital privado para existir foi exatamente a que gerou o movimento político mais hostil ao capital privado na história republicana brasileira. É como se os operários das minas de carvão da Inglaterra vitoriana tivessem eleito um movimento que prometia fechar as minas e chamar isso de libertação. O resultado prático, em ambos os casos, é sempre o mesmo: as fábricas ficam, mas murcham. O capital aprende a conviver, mas diversifica geograficamente. E o trabalhador que foi mobilizado como massa de manobra descobre, vinte anos depois, que a promessa de redenção coletiva tem a consistência de fumaça de cachimbo.
A Mata Atlântica que cerca a Represa Billings, mencionada com aquela ternura de texto turístico que a imprensa adora, é genuinamente bonita. Ninguém disputa isso. Mas a preservação ambiental de São Bernardo do Campo não é obra de nenhuma política pública heroica: é sobrevivente de uma urbanização que, por pressão topográfica e pela lógica do custo de instalação industrial, simplesmente não chegou até lá. A natureza sobreviveu apesar da expansão, não graças ao planejamento. Quando o Estado chega ao território com suas autorizações, seus licenciamentos e seus técnicos de terno, a natureza em geral sai perdendo. Que a Billings ainda respire é uma notícia boa. Que se atribua esse fato a alguma virtude institucional é uma ficção que só convence quem nunca leu um processo de licenciamento ambiental até o fim.
O que São Bernardo do Campo realmente ensina, para quem tem estômago para aprender, é que a riqueza industrial não é eterna e não se mantém sozinha quando o ambiente institucional se deteriora. Detroit, a original, a americana, a que São Bernardo tanto quis imitar no nome e na vocação, está hoje numa ruína que virou cartão-postal do colapso urbano do século XX. Não foi a tecnologia que matou Detroit; foi a combinação perfeita entre sindicatos que tornaram a produção não competitiva, políticos que transformaram a cidade em laboratório de gastos públicos e uma classe empresarial que, quando pode, simplesmente vai embora. O Brasil tem suas próprias versões desse roteiro, e o ABC conhece alguns capítulos de cor. Que a cidade ainda figure nos rankings é uma boa notícia. Que alguém leia essa notícia sem perguntar por quanto tempo, sem rastrear os mecanismos que produziram o bem-estar e os que o corroem, é a definitiva derrota do jornalismo como função civilizatória.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.