Nos anos noventa, um carro de Fórmula Indy chegava perto dos quatrocentos quilômetros por hora numa reta de Michigan, com motor turbo cuspindo mil cavalos quando o boost era liberado para a classificação. Não era ficção, não era propaganda, era terça-feira no escritório dos engenheiros. Os pilotos andavam ali com a certeza de que a próxima curva poderia ser a última, e mesmo assim a fila para entrar na categoria dava volta no quarteirão. A pergunta que ninguém faz, hoje, olhando aquela época com a saudade meio fingida dos boletins esportivos, é simples: por que parou? Quem ganhou com o fim daquilo, e quem perdeu?
A resposta é sempre a mesma, em qualquer setor onde a inventividade humana encontra a caneta do funcionário público ou do cartel privado disfarçado de associação técnica. Quando a engenharia é livre, ela produz coisas que beiram o sobrenatural. Cosworth, Ilmore, Honda, Mercedes, todos brigando com regulamentos generosos, descobriram que dava para tirar potência absurda de blocos pequenos, com turbinas que cantavam num agudo quase metafísico. O cliente final, o sujeito que pagava o ingresso, recebia um espetáculo que justificava cada centavo gasto. O patrocinador tinha onde colar logotipo. O construtor tinha incentivo para arriscar. Ninguém precisava de um seminário sobre sustentabilidade do esporte para entender que aquilo funcionava.
Aí entra o velho truque, que se repete da Roma antiga aos comitês contemporâneos de qualquer atividade humana lucrativa. Sempre que algo prospera por mérito espontâneo, surge alguém com um relatório explicando que precisa ser controlado para o próprio bem. Falaram em segurança, falaram em custos, falaram em paridade competitiva, falaram naquela palavra mágica que abre todas as portas para a mediocridade institucional, a tal padronização. Reduziram boost, limitaram rotação, cortaram cilindrada, impuseram motor único, criaram chassi único. Cada novo regulamento foi vendido como progresso, e cada um deles foi, na prática, uma facada na barriga do espectador que queria ver máquina diferente disputando com máquina diferente.
Siga a trilha do dinheiro e o quadro se ilumina. Fornecedor monopolista de motor recebe contrato milionário e exclusivo, garantido por canetada, sem precisar provar superioridade em pista. Fornecedor de chassi único faz o mesmo. As equipes pequenas, que antes podiam comprar um motor de boutique e surpreender o gigante numa segunda volta, viram operadoras de peça homologada, alugando o que antes inventavam. O risco saiu da engenharia e foi parar inteiro no piloto, que continua pagando com o pescoço. O lucro saiu do construtor inventivo e foi para o licenciado oficial. O espetáculo, que era o que justificava o ingresso, virou ultrapassagem coreografada por software de empuxo.
Existe uma fábula útil aqui, e ela vale para muito além do automobilismo. Toda vez que alguém propõe uniformizar o que era plural em nome da justiça, da segurança ou da modernização, vale parar e perguntar quem vai assinar o contrato de fornecimento exclusivo no fim daquela história. As Olimpíadas antigas tinham regras mínimas e atletas de talento desigual, e ninguém achava que era preciso dar a mesma sandália para todo mundo. O Renascimento italiano não saiu de um edital com critérios de equidade entre ateliês, saiu de mecenas brigando para contratar o sujeito que pintava melhor. A Indy de mil cavalos pertence a essa mesma linhagem, a do reconhecimento honesto de que a desigualdade técnica é o motor, com perdão do trocadilho, de qualquer salto civilizatório.
Hoje os carros são mais lentos, os motores são iguais, os chassis são iguais, e ainda assim insistem que o esporte está melhor porque é mais seguro e mais sustentável. Talvez esteja, no sentido em que um animal empalhado é mais seguro e mais sustentável que um animal vivo. A pergunta inicial volta, intacta, esperando resposta dos que insistem em chamar burocracia de evolução. Quem pagava ingresso queria ver máquina monstro brigando com máquina monstro a trezentos e oitenta por hora. Quem decidiu que isso não podia mais existir, e quem está faturando, em silêncio, com a versão domesticada que sobrou?
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.