Há uma velha regra que nunca falha: quando alguém aparece dizendo que vai trazer desenvolvimento, cultura e emoção para o povo, ponha a mão no bolso, porque é de lá que sairá a conta. A FIFA, esse cartel registrado na pacata Zurique que já sobreviveu a mais escândalos de corrupção do que a máfia siciliana, agora anuncia que a Copa do Mundo de 2026 vai "popularizar de vez" o futebol nos Estados Unidos. A frase soa bonita, quase ingênua. Mas traduzida para a língua dos fatos, significa o seguinte: investimentos bilionários em infraestrutura, dos quais uma fatia generosa sairá dos cofres públicos municipais e estaduais, para que um punhado de donos de franquias da MLS veja o valor de seus ativos multiplicar da noite para o dia. O torcedor americano, que já paga o ingresso mais caro do mundo esportivo, será apresentado como o grande beneficiário. O contribuinte, que financiou a reforma dos estádios e a segurança do evento, será esquecido antes do apito final.
A estrutura administrativa do esporte americano é vendida como modelo de eficiência, e nesse ponto a propaganda acerta pela metade para errar no todo. O teto salarial da MLS, celebrado como instrumento de equilíbrio competitivo, é na verdade um mecanismo de cartel. Os donos de franquia, reunidos como sócios de um mesmo negócio, combinam entre si quanto pagarão aos jogadores, eliminando a livre concorrência por talento. Em qualquer outro setor da economia, isso se chamaria conluio e renderia processo antitruste. No esporte, ganha nome bonito e matéria elogiosa. O jogador, que é quem produz o espetáculo, tem seu poder de barganha amputado por um acordo entre bilionários. Chamam isso de "paridade competitiva". Eu chamaria de cartel com uniforme.
Os recordes históricos de público que a imprensa repete como papagaio merecem um exame um pouco menos preguiçoso. Sim, os americanos estão comparecendo aos estádios. Mas comparecer a um evento não significa adotar uma cultura. Os mesmos americanos lotam rodeios, corridas de NASCAR e competições de soletrar. O público é consequência de marketing, não de paixão espontânea. E o marketing, neste caso, é financiado por quem tem interesse direto na valorização das franquias: os próprios donos, fundos de investimento e a FIFA, que precisa do mercado americano de televisão como um vampiro precisa de sangue fresco. A Copa de 2026 não é um projeto esportivo. É uma operação de valorização de ativos disfarçada de festa popular.
Quando uma cidade americana aceita sediar jogos da Copa, o que de fato acontece é uma transferência de riqueza do contribuinte comum para o proprietário do estádio e para a cadeia de contratos que orbita o evento. Reformas viárias, reforço policial, isenções fiscais, tudo pago com dinheiro de imposto, tudo revertido em lucro privado. É o mesmo mecanismo que opera em Olimpíadas, em Copas anteriores, em qualquer megaevento: socializar o custo, privatizar o lucro. Os prefeitos sorriem nas coletivas porque ganham visibilidade política. Os governadores assinam os cheques porque o dinheiro não é deles. E o cidadão que mora a três quarteirões do estádio reformado descobre que seu IPTU subiu, que o trânsito piorou e que o legado prometido se resume a um elefante branco com gramado sintético.
O mais revelador de tudo é que a MLS, a liga profissional americana, opera como uma entidade única. Não há promoção nem rebaixamento. Os donos não competem entre si de verdade, são sócios do mesmo empreendimento. Um clube não vai à falência porque o sistema não permite. O risco foi abolido, e com ele, a dinâmica real de mercado. O que sobrou é um condomínio de bilionários que usa o esporte como veículo de especulação imobiliária e valorização de marca. Quando alguém disser que a Copa vai "democratizar" o futebol nos EUA, pergunte: democratizar para quem? Para o fã que pagará 500 dólares num ingresso? Para o contribuinte de Dallas que financiará a segurança sem nunca pisar no estádio? Ou para o dono da franquia cujo patrimônio líquido salta 40% a cada ciclo de Copa? A resposta, como sempre, está no extrato bancário, não no placar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.