Março de 1938. As tropas alemãs cruzam a fronteira austríaca sem disparar um tiro, e o Anschluss transforma a Áustria em província do Reich da noite para o dia. No mesmo movimento em que apaga um país do mapa, o regime apaga uma seleção do calendário. O Wunderteam, aquela máquina vienense que havia encantado a Europa nos anos trinta com passes curtos e inteligência tática, simplesmente deixa de existir como entidade futebolística. Os melhores jogadores são convocados, no sentido militar e simbólico, para a seleção alemã. Os que não interessavam ao novo dono, por motivos étnicos ou políticos, foram convidados a desaparecer pelas portas dos fundos da história. E a Fifa, sentada confortavelmente em Zurique, recebeu o telegrama, fez uma careta breve e reorganizou a tabela.

Vale parar aqui e olhar a cena com a frieza que ela merece. Um Estado anexa outro Estado violando todo tratado existente, e a entidade máxima do esporte mais popular do planeta trata o assunto como problema de planilha. A Suécia, que enfrentaria a Áustria nas oitavas de final na França, ganhou a vaga por W.O. e seguiu adiante. Ninguém suspendeu nada, ninguém puniu ninguém, ninguém devolveu inscrição, ninguém sequer fingiu indignação protocolar. A bola tinha que rolar, os ingressos tinham que vender, os patrocinadores tinham que sorrir. Quando a conveniência fala mais alto que o princípio, descobre-se rapidamente que princípio era retórica de salão.

É preciso entender que toda federação esportiva internacional opera sob a mesma lógica. Ela existe formalmente para regular o jogo, mas vive concretamente da boa vontade dos governos que sediam, financiam, transmitem e legitimam seus eventos. Em 1938, irritar Berlim significava perder a hipótese de qualquer futura Copa em território alemão, perder relações com federações satélites, perder a engrenagem inteira que mantinha o cartel funcionando. A escolha foi fácil, porque para esse tipo de organismo a escolha sempre é fácil. Diante de um regime totalitário que devorava nações vizinhas, o silêncio compunha o regulamento. Quarenta anos depois, a mesma instituição entregaria uma Copa à Argentina dos generais sem corar. Cinquenta anos depois, normalizaria torneios em Estados onde mulheres não dirigem e dissidentes desaparecem. O padrão não é acidente. É modelo de negócio.

Repare na coreografia: o ditador de plantão precisa do espetáculo para distrair o súdito e maquiar o regime, a entidade esportiva precisa da bilheteria garantida e da chancela política, os jornais precisam do drama vendável, o torcedor precisa do circo. Cada um recebe a sua dose de morfina, e ninguém pergunta de onde vem o dinheiro nem para onde ele vai. O futebol, como toda atividade que movimenta cifras absurdas e mobiliza paixões iletradas, é um dos territórios preferidos da aliança entre poder estatal e burocracia privada subvencionada. Não há limpeza possível ali, porque a sujeira é estrutural, não acidente de percurso.

O Wunderteam, aliás, merece um parágrafo de saudade que ninguém lhe dedicou na época. Era a expressão de uma escola, de uma cidade, de uma cultura cafeísta e intelectual que produzia tanto economista refinado quanto meio-campista de visão periférica privilegiada. O nazismo dissolveu tudo no mesmo caldeirão de uniformidade industrial: a economia em comando central, a arte em realismo socialista de braço estendido, o futebol em força bruta germânica. O resultado em campo foi a humilhação da própria Alemanha, eliminada na primeira fase pela modesta Suíça, prova menor mas eloquente de que coletivismo não dribla, marca homem com homem porque não consegue pensar o espaço.

A lição que sobra desse capítulo enterrado é simples e desagradável. Sempre que uma autoridade internacional, esportiva, sanitária, comercial ou cultural, se apressa em acomodar um fato consumado de violência estatal, ela está dizendo, com letras pequenas no rodapé do contrato, que sua existência depende daquele tipo de violência continuar acontecendo em algum canto do mundo. Quem paga a conta dessa cumplicidade discreta? O torcedor anônimo, o contribuinte de cada país filiado, o jogador que perdeu a pátria e o sustento, o austríaco que virou alemão por decreto. Quem recebe? Sempre os mesmos: os burocratas de smoking e os tiranos de farda, irmãos siameses que se reconhecem à distância e brindam juntos no camarote.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.