Há um truque antigo que governantes adoram repetir, sempre travestido de modernidade. Toda vez que o crédito popular explode em fanfarra, alguém em algum gabinete já está calculando o tamanho da bomba de inadimplência que vai estourar três trimestres depois. Em 2026, o nome dessa bomba é Pix Parcelado, vendido como a maior democratização financeira da história do país, e cuja propaganda oficial soa exatamente como aquele vendedor que jura que o carro batido nunca bateu. A pergunta que ninguém da imprensa subserviente faz é a mais simples de todas: se isso é tão bom, por que precisa ser tão empurrado?

Sigamos o dinheiro, que é onde mora a verdade quando o discurso oficial já entrou em transe. As taxas embutidas no parcelamento via Pix flutuam entre 6% e 9% ao mês, números que fariam corar qualquer agiota de calçada nos anos noventa, e que hoje são apresentados em letras miúdas como tarifa civilizada. O grande beneficiário não é o pobre que parcela a marmita em quatro vezes, mas o conglomerado financeiro que recebe à vista, do Banco Central, com risco zero, enquanto a fatura podre fica nas costas do consumidor e, eventualmente, do contribuinte via programas de renegociação subsidiada. A operação tem a elegância de um cassino onde a banca nunca perde porque trocou as regras antes da partida começar.

O mais saboroso é observar como o vocabulário foi sequestrado. O que antes se chamava juros extorsivos virou facilitação de acesso. O que era endividamento crônico virou educação financeira em construção. O analfabeto econômico foi convencido de que parcelar o botijão de gás em seis vezes representa um avanço civilizatório, e não a confissão pública de que o salário mínimo evaporou diante de uma inflação de serviços que o IPCA oficial finge não enxergar. Repete-se aqui aquela velha técnica imperial de distribuir pão envenenado e chamar de banquete, técnica que já derrubou repúblicas inteiras quando a plebe finalmente percebeu o gosto.

Enquanto isso, os bancos digitais, os adquirentes e as fintechs queridinhas do andar de cima do Planalto registram lucros recordes que envergonhariam até a United Fruit em seus dias mais gulosos na América Central. As mesmas instituições que receberam isenções fiscais milionárias sob o argumento de fomentar inovação agora cobram spreads bancários superiores a 40 pontos percentuais e ainda recebem a benção da autoridade monetária, que se ocupa de fiscalizar padaria enquanto o Leviatã financeiro engole o tecido produtivo nacional. É a parceria público privada na sua forma mais pura: pública para os custos, privada para os lucros, e privatíssima para os bônus dos executivos.

Há um padrão histórico nisso, e quem leu três livros sabe identificá-lo de olhos fechados. Toda vez que um regime começa a precisar manter o consumo artificialmente aquecido para sustentar a popularidade, recorre ao crédito subsidiado como heroína fiscal. Funcionou no império tardio que distribuía moeda desvalorizada para acalmar a turba, funcionou nas monarquias absolutistas que vendiam títulos de dívida perpétua para financiar guerras inúteis, e está funcionando agora no laboratório tropical onde a engenharia social adotou aplicativo de celular como vetor preferencial. A diferença é que desta vez a propaganda chega via notificação push, com emoji de coraçãozinho.

O custo verdadeiro, claro, será cobrado fora do balanço. Aparecerá na deterioração silenciosa do poder de compra, na compressão da classe média que já não sabe mais o que é poupança, no crescimento daquela servidão por endividamento que é a forma contemporânea da escravidão por dívidas dos códigos antigos. O cidadão que parcelou o supermercado em doze vezes não é dono do próprio salário do ano que vem, ele apenas administra o cronograma da própria submissão, e ainda agradece pela conveniência. Bem aventurados os mansos, dizia um certo professor de Nazaré, mas ele estava falando de outra coisa.

Quando o castelo de cartas começar a tremer, e tremerá, porque toda pirâmide creditícia desabou desde a holandesa das tulipas, virá o ritual conhecido. Pacotão de socorro aos bancos, repactuação compulsória travestida de bondade governamental, novo imposto sobre transações que ninguém prometeu na campanha, e os mesmos âncoras de telejornal explicando, com aquela cara de sentido pesar, que ninguém poderia ter previsto. Pôde, sim. Quem soubesse contar até três, e tivesse coragem de não mentir, previu.

No fim, sobra a pergunta que o regime não admite no debate público: quem decidiu que a função do Estado é avalizar a usura disfarçada de tecnologia? A resposta cabe num bilhete: quem ganha com isso. E enquanto o cidadão médio comemora ter parcelado o frango congelado em três vezes sem juros aparentes, o relógio da próxima crise bate suas badaladas, pontual como cobrador na porta do devedor.

A análise e opinião são do O Algoz.